É melhor entrar na viagem!

iG Minas Gerais |

Ilustração Hélvio Avelar
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Eu, assim como todo o Brasil, fui pego de surpresa. Na semana passada, a notícia de que Drica Moraes estaria fora de "Império", da Globo, veio como um soco no estômago. Gosto muito dela e acho que é uma das maiores atrizes deste país. Sofri junto quando ela passou por um câncer e imaginava que essa terrível doença tivesse voltado. Ainda bem que não voltou. Drica teve uma crise de labirintite, seguida de uma faringite e, por orientação médica, foi afastada da trama de Aguinaldo Silva para se tratar. Uma grande perda para a novela, mas antes assim, né? Melhor que a perda seja apenas para a novela mesmo, pois não dá pra brincar com a saúde.

Mas o que fazer neste momento? Cora, a grande vilã de "Império", não poderia apenas sumir. Não dava pra fazer as maldades longe da tela. Não tinha previsão de retorno, e uma personagem desse calibre não poderia morrer. A solução encontrada por Aguinaldo Silva foi, pra mim, inteligentíssima (e, no mínimo, divertida e curiosa): fazer uma plástica em Cora para ela surgir na pele de Marjorie Estiano. A atriz, que interpretou a megera nos primeiros capítulos e fez muito sucesso entre os telespectadores e internautas, volta à história como a mesma personagem. No sábado mesmo, ela voltou mais jovem depois do tratamento que fez para rejuvenescer e aí teria sua noite de amor com José Alfredo (Alexandre Nero). Assim, o enredo segue como estava previsto. Dessa forma, o que Marjorie precisa fazer, e eu acho que ela vai conseguir, é convencer os personagens da ficção e esses mesmos telespectadores e internautas da vida real de que essa foi a melhor saída. A mim ela já convenceu. Marjorie é uma excelente atriz, e essa mudança dá um tempero fantasioso instigante à trama.

E ela já convenceu o José Alfredo também. Em uma publicação no Facebook, o ator Alexandre Nero rasgou elogios para Marjorie, para Drica, as chamou de "gênias", e escreveu justo o que eu acho sobre a solução encontrada por Aguinaldo. São palavras dele: "Só creio cada vez mais que Aguinaldo nasceu no país de Lewis Carroll, tomou suco da mesma laranja de Anthony Burgess, que d iria: 'In verte a coerência lógica do mundo, o modo bizarro de fazer sentido'. Em seu ensaio intitulado 'Nonsense', discorre que a mesma é um misto de sarcasmo e riso, ingenuidade e ternura. Na solução nonsense, é possível imaginar o modo como Aguinaldo percebe a sociedade em que vive e se integra. Uma escrita que surge como via de protesto. Há tons humorísticos no discurso, não anunciando apenas o absurdo, mas uma espécie de niilismo entre o mundo e as suas representações, nós próprios e as coisas. Sobre o Aguinaldo, talvez Deleuze dissesse: 'O nonsense, aquele que desafia a realidade que temos como normal'".

Concordo em gênero, número e grau. Nada melhor que uma loucura, uma zoeira, uma fantasia, uma ficção dentro da ficção. Não devemos questionar, não há o que se questionar. É irreal? Sim, mas só assim a tal coerência do mundo grita aos quatro ventos ficcionais de uma forma encantadora, criativa e surreal. Que possamos fazer essa viagem no tempo com o autor, e que as atrizes encontrem o sucesso em seus caminhos distintos. Vamos levar tudo na brincadeira, pois a Drica não volta mais "estiano". Só a Marjorie.

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