Livro sobre abuso gerou investigação da polícia

Relato de violência sexual ocorrida em Minas levou à prisão de religioso no Sul

iG Minas Gerais | Aline Diniz |

Mudança. 
Depois de anos de abusos, Ribeiro escreveu um livro que motivou a investigação policial
Arquivo pessoal
Mudança. Depois de anos de abusos, Ribeiro escreveu um livro que motivou a investigação policial

O desabafo de uma vítima de pedofilia virou livro e levou a Polícia Civil a prender o ex-padre suspeito de abusar do autor, há mais de 30 anos. “Ele só foi preso porque existem vítimas atuais, e isso reforça a necessidade de se discutir a prescrição desse tipo de crime”, pondera Marcelo Ribeiro, escritor da obra “Sem Medo de Falar – Relato de uma Vítima de Pedofilia”, publicada neste ano. A detenção de João Marcos Porto Maciel, 74, aconteceu nesta terça, em Caçapava do Sul (RS). A história do empresário mineiro foi publicada por O TEMPO no dia 7 de agosto de 2014. O autor foi vítima dos crimes quando tinha entre 12 e 16 anos. Na época, Ribeiro era coroinha da igreja de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, e o então padre era maestro do coral. Os abusos eram esporádicos, mas passaram a ser diários quando os dois se mudaram com o coral para Novo Hamburgo (RS). Ribeiro confiava no padre e foi sendo assediado aos poucos, com beijos, até chegar ao sexo.

A história de Ribeiro parece se repetir no Rio Grande do Sul. Segundo a Polícia Civil, dois adolescentes contaram que foram vítimas de abusos sexuais no monastério durante aulas de Maciel. Eles participaram do coral da igreja. No templo que Maciel fundou na cidade, a polícia apreendeu um videogame, computadores, doces, dinheiro e duas armas. Ele foi levado à delegacia, mas negou os crimes. Ainda de acordo com a Polícia Civil, outras duas pessoas teriam sido abusadas sexualmente nas décadas de 1960 e 1970 pelo “dom Marcos”, como o religioso é conhecido. “A forma de agir dos abusadores é a mesma. Eles usam a posição que têm na sociedade, como, por exemplo, o papel de proteção”, considera o empresário. Defesa. Maciel foi expulso da igreja Católica em 2009 e migrou para a igreja Anglicana, de onde foi afastado em 2011. Agora, ele faz parte da igreja Veterodoxa. A reportagem entrou em contato com o templo, mas quem falou pela igreja foi o advogado Rogério Haack. O defensor informou que ainda não teve acesso ao processo, mas visitou Maciel no presídio. “Fiquei preocupado com a situação dele. Ele tem diabetes e está com algumas feridas nas pernas. Ele precisa de uma alimentação diferenciada”, disse o advogado. Haack revelou que vai entrar com o pedido de liberdade provisória. Se o artifício não funcionar, o advogado deve pedir que o ex-padre fique preso em casa.

Saiba mais Números. Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social de Minas Gerais (Seds), foram 1.941 crimes de pedofilia no Estado em 2012. O índice passou para 2.231 em 2013. Até julho deste ano, 1.286 casos foram registrados. Grupo. O ex-seminarista Francisco José Gomes Filho lidera um grupo em Minas que acompanha a apuração de casos de abuso sexual relacionados à igreja. Ele foi vítima de assédios entre 2004 e 2005 e entrou com ação de danos morais contra a igreja, pedindo uma indenização de R$ 1,3 milhão.

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