Quando se perde totalmente a respeitabilidade

iG Minas Gerais |

“Essa obstrução é única nos 190 anos de história desta Casa (o Congresso). Vinte e seis assalariados suspenderam a sessão de votação” (Renan Calheiros, presidente do Congresso na sessão de 2 de dezembro). Nunca fiz nenhum levantamento sobre situações de obstrução no Congresso – portanto, não posso dizer que aquilo a que assisti na semana que passou, pela TV, tenha sido algo inédito em 190 anos. Posso afirmar, isso sim, que nunca vi um presidente tão sem iniciativa (não sei se propositalmente ou por acaso) e tampouco jamais imaginei que alguém do PCdoB agiria como agiu a minha ex-colega deputada Jandira Feghali. Ela pediu o esvaziamento das galerias porque sua colega e líder no Senado, Vanessa Grazotin, teria sido xingada de “vagabunda” pelos que ocupavam o espaço. Em primeiro lugar, porque há dúvidas sobre o tal xingamento à senadora: dizem uns que a galeria a teria chamado de “vagabunda”, outros que a galeria dissera “vai pra Cuba”. Mas isso não é o mais importante: mais importante é alguém de um partido que se diz de esquerda não saber que ocupar um posto público é assumir o risco de ser vaiado, xingado ou aplaudido pelos que ocupam as galerias da casa do povo. Parece até que, ao ser eleito, qualquer parlamentar deixa de lado o fato de ser representante do povo e passa a pertencer a uma casta intocável, diante de quem todos devem – quem sabe – se ajoelhar. Lembro-me de cena que invoquei na Constituinte mineira nos anos 1987/1988, quando fui defender emenda de minha autoria sobre a “livre manifestação das galerias”. Fui contestada por integrante do então PDS, o deputado José Bonifácio Andrada, ilustre representante de família que ocupou cargos de relevância desde o Brasil imperial. Saquei da pasta um trecho de seu antepassado, Antônio Carlos Andrada, que, na Constituinte de 1823, clamava para que o povo defendesse os parlamentares, ocupando não as galerias, mas que adentrassem o plenário para impedir que o imperador fechasse a Assembleia. Agora, na sessão do dia seguinte, 3 de dezembro, que se arrastou por todo o dia, com galerias fechadas, presencio o atual líder da bancada do PT na Câmara, deputado Vicentinho, afirmar que nunca alguém do PT compactuara com atitudes violentas no interior daquelas Casas. Desminto você, Vicentinho. Eu era líder, como você hoje é, e comandei uma fileira de bravas deputadas – dentre as quais Jandira Feghali e Maria da Conceição Tavares –, que, de mãos dadas, impedimos que os deputados da situação (governo FHC) fechassem a sala da Comissão de Constituição e Justiça, para evitar a presença ali dos sindicalistas opositores da reforma da Previdência. Houve um tremendo sururu, e os sindicalistas invadiram a sala; nós os deixamos passar, e eles atropelaram tudo e todos, até se acomodarem no lugar que lhes pertencia. Como mudou o PT, Vicentinho: como vocês hoje temem a manifestação do povo! Voltem a ser o que éramos. Esse é o dever do Partido dos Trabalhadores.

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