Marido de vereadora é preso durante entrevista ao vivo para rádio de BH

Ainda não há informações sobre qual seria o envolvimento do marido da política no esquema fraudulento

iG Minas Gerais | JOSÉ VÍTOR CAMILO |

O marido da vereadora de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, Flávia Renata Oliveira Silva Cruz (PSC), mais conhecida como Flávia de Lair, foi detido na tarde desta terça-feira (9) no momento em que concedia uma entrevista à rádio Itaiaia. A prisão aconteceu em decorrência da operação Lavagem III, que tem como objetivo desarticular uma organização criminosa que atuaria em Santa Luzia, Vespasiano, Sete Lagoas, Confins e Belo Horizonte. Armando Junio Pereira da Cruz foi detido dentro do estúdio da rádio, durante o programa "Chamada Geral".

Ainda não há informações sobre o envolvimento do marido da vereadora no esquema. De acordo com as primeiras informações da assessoria de imprensa da Polícia Civil (PC), os policiais investigam fraudes em licitações, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e corrupção. Estão sendo cumpridos 24 mandados de busca e apreensão e seis de prisão.

Ouça o momento da prisão

Assista também ao vídeo do momento:


O marido da vereadora concedia uma entrevista falando sobre a prisão da sua companheira no programa Chamada Geral, do apresentador Eduardo Costa, quando dois policiais civis chegaram com um mandado. O jornalista chegou a tentar intervir, mas o suspeito acabou detido. "Quero comunicar aos senhores que, neste momento, dois policiais civis estão no estúdio da rádio Itatiaia para prender o Armando, marido da vereadora de Confins. Até aqui, respeitosamente, estou resistindo e dizendo a eles que não acho crível, lógico, correto que invadam o estúdio da maior emissora de Minas para fazer uma prisão", alegou Costa.

Após isso, o apresentador chegou a clamar pelo delegado Oliveira Santiago Maciel, chefe da Polícia Civil, o secretário de Defesa Social, Marco Antônio Romanelli e o governador Alberto Pinto Coelho, para que a intervenção não acontecesse nos estúdios da rádio. "Nós, que não nos dobramos sequer na ditadura, não vamos aceitar. Ninguém vai prender ninguém dentro do estúdio da rádio Itatiaia".

Em seguida, o jornalista afirmou que os policiais estariam cumprindo uma ordem que era documentada naquele momento. "O policial aqui, numa atitude de desrespeito, nós não merecíamos, está dizendo: 'o protegido da Itaiaia'. Está levando o moço preso neste momento, arrancando de dentro do estúdio da Rádio de Minas"

Durante a entrevista, Armando Cruz alegou que sua mulher é ilha de Confins, honesta, e que estaria sendo vítima de represálias por parte do delegado Jonas Tomazi. De acordo com o detido, o problema com o policial civil teria começado após uma criança da cidade desaparecer. "Levei a mãe na delegacia e falaram que teríamos que procurar a de desaparecidos. Lá fizeram a ocorrência e alguém ligou lá em Confins e falou algo com ele sobre o caso. De lá pra cá ele vem puxando minha ficha pregressa, prendeu minha mulher por boca de urna no dia da eleição. A casa que moro é de barro, com rachaduras que cabem uma mão", alegou o detido durante o programa.

O suspeito ainda afirma ter levado o delegado na ouvidoria da Polícia Civil no dia 21 de novembro. "No dia que ele recebeu a notificação, fiquei sabendo que ele deu pulos de raiva e falou que ia prender eu e a Flávia", afirmou.

Antônio Afonso Pereira Júnior, presidente do Conselho de Biblioteconomia, também estava nos estúdios da rádio, porém para dar uma entrevista sobe um projeto de lei que visa criar o cargo de bibliotecários nas escolas públicas e particulares do Estado e que ainda não saiu do papel.

"Já tinha saído lá de dentro quando o prenderam, mas estava no táxi e ouvi tudo. Não acho que o preso foi muito convincente nas palavras, mas o que mais incomodou o Eduardo Costa foi a forma como aconteceu a prisão. Tiraram ele a força do estúdio, podiam ter esperado ele sair de lá de dentro", alegou.

Truculência

Uma funcionária da rádio Itatiaia, que preferiu não ter o nome divulgado, contou como a prisão aconteceu. "A truculência começou com o porteiro. Ele tentou avisar da chegada dos policiais e, eu pude ver nas imagens, quando eles tentam tomar o crachá do porteiro para passar", explicou. Após isso, quando os policiais chegaram na porta do estúdio, o apresentador os avistou e pediu que aguardassem, momento em que a produtora saiu para conversar com eles. 

"Eles chegaram, não apresentaram nenhum documento, e chegaram até mesmo a empurrar a porta que a produtora estava segurando para entrar no estúdio. A questão é que não pode entrar lá ao vivo, prejudica o som, etc. Depois que o Eduardo saiu para conversar com eles, mandaram ele calar a boca, falou que estava protegendo o Armando, chamaram de queridinho da Itatiaia e o levaram, empurrando para fora do estúdio", relatou a funcionária.

O problema principal teria sido o clima que ficou na redação após o ocorrido, já que o programa estava próximo do fim e outro apresentador já se preparava para tomar o lugar do Eduardo Costa. "Foi muito despreparo da polícia chegar invadindo um estúdio ao vivo. O delegado chegou a ligar depois e falaram que ele só mandou cumprir o mandado", finalizou. 

Em nota oficial, a Polícia Civil de Minas Gerais informou que a Corregedoria Geral da corporação já iniciou apuração que vai esclarecer as circunstâncias em que dois policiais civis cumpriram o mandado de prisão nas dependências da Rádio Itatiaia.

Segundo o comunicado, o corregedor geral adjunto, delegado Antônio Gama, já esteve na emissora, onde recolheu imagens de vídeo que registram a ação e levantou informações para elaboração do relatório preliminar que deve subsidiar o procedimento investigativo.

"A Polícia Civil reafirma que rejeita quaisquer práticas que atinjam a liberdade de imprensa, atributo que caracteriza a reconhecida independência dos veículos de comunicação do nosso país, e que têm na Rádio Itatiaia um de seus mais respeitados exemplos", diz a nota.

Relembre

Na manhã desta terça-feira (9), já na terceira fase da operação, seis pessoas já haviam sido presas, entre elas o pai do vereador Aladir José Pessoa e Souza (PTB), que é suspeito de liderar o grupo. Dos presos, dois são funcionários da prefeitura de Confins, um é "laranja" de uma empresa ligada ao político e outros dois familiares de Souza.

Os presos foram encaminhados para Delegacia de Polícia Civil de Confins e serão ouvidos ainda nesta terça-feira (9). Além disso, foram apreendidos um computador, R$ 72 mil em dinheiro, documentos e um Corolla, tudo na casa do chefe de gabinete da prefeitura de Confins.

O vereador Aladir José Pessoa já chegou a ser preso em outras etapas da operação, ficou detido por 25 dias, mas conseguiu habeas corpus e responde o processo em liberdade. O político pagava propina para funcionários da prefeitura de Confins e tinha cerca de cinco empresas que entravam na concorrência e venciam as licitações.

Segundo as investigações, em um intervalo de quatro anos o vereador quase dobrou seu patrimônio. Dados disponíveis no site do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) revelam que o patrimônio de Aladir passou de R$ 263 mil, em 2008, para R$ 410 mil, em 2012.

O salário de um vereador de Confins é de R$ 3.282. O parlamentar ainda tem direito a verba indenizatória no valor mensal de R$ 8.400. O recurso é ressarcido no caso de gastos com o mandato.

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