Do que Aécio necessita?

iG Minas Gerais |

Aécio Neves é o mais destacado líder da oposição atualmente. Para surpresa de muitos brasileiros – inclusive deste que assina – ultrapassou a barreira dos 50 milhões de votos, um patrimônio político incontestável. Como eleição é mais ou menos como Carnaval – na Quarta-feira de Cinzas já se esboça o tema do desfile do ano seguinte –, especula-se de pronto se será, outra vez, o senador mineiro o candidato a enfrentar a base do PT em 2018. Fosse a nova disputa em 2015, a resposta seria positiva. Mas, como faltam quatro anos, ainda vai correr muita água. Um indício da notoriedade do tucano é a recorrência na imprensa nacional, algo que não se via tão espontaneamente até o ano passado. Se o empreiteiro delatou, se o governo tentou mexer na LDO, se Dilma fez ou deixou de fazer, quem da oposição inquirir? Aécio, ora. Ou seja, ele conquistou uma tribuna eletrônica quase cativa para bater na atual gestão federal e reforçar a demarcação do terreno partidário-eleitoral. Entretanto, considerando que no ninho do PSDB os mais bicudos acabam se bicando por falta de espaço, como sustentar a proeminência setorial por quatro anos? A resposta começa com outra pergunta: dos 51 milhões de votos que recebeu no segundo turno, quantos foram para Aécio e quantos foram para o adversário da petista Dilma Rousseff? Inegavelmente, por razões conjunturais e por consequência de vontade própria, a atual administração sofre desgaste, uma das principais causas do racha que se deu no país. Difícil dizer que, se fosse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o agora senador eleito José Serra ou mesmo o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos no lugar do tucano mineiro do outro lado da mesa, a sorte desse oposicionista teria sido a mesma. Mas uma coisa é certa: a votação também seria significativa. Do que Aécio precisa, desde já, é ser mais Aécio e menos anti-Dilma. Não anti-Dilma em termos programáticos, mas em termos de genuinidade e personificação de postura. Ser líder de oposição de forma genérica e pasteurizada talvez só lhe renda mais algumas aparições em horário nobre. Primeiramente, é necessário descer do palanque e trabalhar como parlamentar. Aécio discursa da tribuna do Senado com o mesmo artificialismo das campanhas suarentas do interior do Brasil, com a mesma impostação de voz típica dos políticos da geração do avô. Dá seu depoimento no telejornal com o mesmo risinho de canto de boca que adotou nos debates. É um homem público midiático, não há dúvida, mas deveria rever forma e conteúdo. Se o governo merece críticas, o que o senador por Minas Gerais propõe em contrapartida? Por que nenhum dos 20 projetos que apresentou na primeira metade de seu mandato ainda não virou lei? Ele tem todo o capital reunido agora para se consolidar como alternativa viável e respeitável ao governo Dilma Rousseff para metade do eleitorado, quiçá mais. Tem, ele e seu grupo, é que investir em conteúdo. Só ser anti-Dilma, ser do contra, não será o suficiente para fazer frente, por exemplo, ao gestor do segundo maior orçamento da República, o governador de São Paulo.

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