Um conto de fadas flamenco

Um dos grandes destaques da programação. “Branca de Neve” leva a fábula clássica para universo das touradas

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Toureira. Macarena García ganhou o prêmio de atriz revelação no Goya em 2013 por sua performance como uma Branca de Neve toureira
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Toureira. Macarena García ganhou o prêmio de atriz revelação no Goya em 2013 por sua performance como uma Branca de Neve toureira

Um dos grandes destaques da programação do festival Latino: IV Mostra de Cinema Espanhol e Latino-americano em 2014, “Branca de Neve” usa o mesmo recurso explorado por “O Artista” alguns anos atrás: realizar um longa contemporâneo seguindo as regras e limitações do cinema mudo do início do século XX. Ao contrário do filme dirigido por Michel Hazanavicius, porém, a produção espanhola não faz da proposta um mero artifício ou chamariz desafiador. Ela usa a linguagem para construir seu universo e contar sua história.

Isso porque “Branca de Neve” existe num mundo de preto e branco – de pessoas extremamente boas ou totalmente más. E é possível diferenciar quem é quem pela maquiagem em seus rostos, a roupa que elas usam ou a forma como são enquadradas.

E a predisposição do gênero a expressões exageradas e fortes arroubos de emoção latina casa perfeitamente com o universo para o qual o diretor e roteirista Pablo Berger transporta a história: as touradas em Sevilha. “O filme não projeta esses estereótipos. Ele faz uma reapropriação estética deles”, define a curadora Marta Ruiz Espinós.

O longa começa quando o famoso toureiro Antonio Villalta (Daniel Giménez Cacho) é atacado por um touro na arena. O acidente faz com que sua esposa tenha um parto precoce e morra na mesa de cirurgia.

Tetraplégico e deprimido, Villalta rejeita a filha Carmencita (Sofía Oria). Anos depois, quando a avó dela morre, os dois se reencontram e ele passa a ensiná-la a arte da tourada. A reaproximação, porém, é abortada por Encarna (Maribel Verdú), enfermeira que se casou com Villalta após o acidente. Ela manda que seu capataz mate Carmen (agora vivida por Macarena García), que escapa e, amnésica, é resgatada por sete anões toureiros. Rebatizada por eles de “Branca de Neve”, ela não demora em se tornar um fenômeno das arenas.

Mais que um filme sobre touros ou touradas, “Branca de Neve” é um filme que faz uso do reino animal para revelar as personalidades e os arcos de seus personagens. A inocência (e sua perda) de Carmencita é associada ao seu galo de estimação. Quando ela começa a treinar com o pai, Encarna se torna o touro que ela deve enfrentar um dia. Mas a madrasta também se revela nos cães de caça que adora exibir, fazendo da pobre órfã o coelhinho a ser exterminado.

Berger constrói essas associações com raccords visuais típicos do cinema mudo – como o olho do touro assassino do início que se torna o olho da mãe de Carmen que se torna o olho de Encarna, anunciando o que está prestes a acontecer. São transições pouco sutis, mas eficientes e, associadas à bela trilha de Alfonso de Vilallonga – que, na tradição do gênero, dita o ritmo, os momentos de emoção, ação e suspense do longa – realmente tornam o diálogo dispensável para narrar a história.

“Branca de Neve” não se limita a simplesmente reproduzir essa linguagem, como se fizesse um filme dos anos 1920. Um dos grandes temas da produção é a inversão dos sexos. Carmen só vai ser capaz de enfrentar a vilã Encarna (que usa calças e ternos) quando deixar o flamenco da mãe e aprender o ofício do pai e vestir as calças de toureiro – o que é acentuado por seu corte de cabelo masculino.

Isso só acontece também quando ela sai dos cenários fechados – que, no cinema mudo, são maiores que os próprios personagens, determinando e aprisionando sua história – e passa a viver ao ar livre com os anões. Não por acaso, o momento em que ela recupera sua memória coincide com um caminhar para a luz do sol muito forte da arena, que quase a cega, como se ela fosse mesmo quase atropelada por um touro.

As atuações são coerentes com a abordagem, mas quem mais se diverte com o estilo é Maribel Verdú. A atriz pega um papel que é pura maldade, sem muitas nuances, e mostra, como já havia feito em “E Sua Mãe Também” que é capaz de momentos de sutileza altamente expressiva e de grandes explosões de emoção.

Na oposição entre seu rosto e expressões almodovarianas e a inocência do olhar da pequena Sofía Oria, Berger constrói todo o filme. E sintetiza a economia de sua linguagem.

Latino 2014

IV Mostra de Cinema Espanhol e Latino-americano

Quando. de 10 a 13/12

Onde. Praça Duque de Caxias, bairro Santa Tereza

Programação completa. belohorizonte.cervantes.es

Entrada gratuita

“Branca de Neve” será exibido nesta quarta, às 21h, e no sábado, às 22h

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