A mostra vai onde o povo está

Quarta edição do festival Latino leva 12 produções do cinema espanhol e latino-americano à praça de Santa Tereza

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Infantil. Em “O Sonho de Iván”, um garoto de 11 anos se prepara para jogar contra campeões mundiais
Instituto Cervantes
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Depois de três edições que atingiram cerca de 20 mil pessoas em espaços como o Cine Belas Artes, Humberto Mauro e centros culturais espalhados por Belo Horizonte, o festival Latino: Mostra de Cinema Latino-americano e Espanhol decidiu dar o próximo passo em 2014. “Sentamos, conversamos e vimos que era a hora de encontrar as pessoas nas ruas e chegar a outros públicos”, conta a curadora Marta Ruiz Espinós.

O resultado dessa resolução pode ser conferido a partir de amanhã na praça Duque de Caxias – mais conhecida como a “pracinha do Santa Tereza”. Foi para lá que o Instituto Cervantes, responsável pelo evento, decidiu levar o festival neste ano. Até o próximo sábado, uma tenda montada especificamente para a mostra, com projetor digital e capacidade para 200 pessoas, exibe 12 produções em língua espanhola, espalhadas por 15 sessões gratuitas.

“Fazendo uma autocrítica institucional, nós programamos muitas atividades culturais, mas para quem exatamente? Devemos também formar público”, reflete Ignácio Martinez-Castignani, diretor do Instituto Cervantes e adido diplomático da Espanha em Belo Horizonte. Segundo ele, isso significou, no caso do Latino, fazer com que, “sem descer o nível da programação, o encontro com a cultura cinematográfica se tornasse mais acessível”.

A escolha do coração de Santa Tereza veio exatamente daí. “A praça é um lugar de passeio, de encontro. E queremos que o cinema faça parte desse ritual, que as pessoas curtam os filmes de língua espanhola”, explica Espinós. Como ela argumenta, a organização entendeu que o festival já se encontra consolidado entre o público que frequenta centros culturais e eventos do gênero. “Eles vão comparecer, independentemente do lugar: praça, cinema fechado”, afirma.

Mas ainda existe um certo receio por parte do grande público de frequentar centros culturais ou cinemas fora dos shoppings – como se eles ainda fossem espaços elitistas ou “difíceis de entender”. “E nossa programação não é assim. Não é um lugar sagrado. Por isso, nós quisemos levá-las para as ruas: para que eles consigam ver isso. Se elas não vão, nós vamos levar o cinema até elas”, propõe.

Em consonância com essa proposta, Espinós também organizou uma seleção de filmes que misturam o reconhecimento artístico a um caráter popular. A mostra traz desde “O Apóstolo” – uma animação de terror passada no caminho de Santiago de Compostela – até “Carmina ou que se Exploda”, um falso documentário sobre a vida na Espanha contemporânea. E para atrair os aficionados por Real Madrid, Barcelona e afins, a programação traz nada menos que quatro produções sobre futebol: “Impedimento”, “Rivais”, “Dias de Futebol” e “O Sonho de Ivan” – longa de classificação livre, que será exibido numa “sessão-família” no sábado, às 11h.

Entre os destaques, estão ainda duas produções de grande sucesso na Espanha recentemente e que já passaram pelos cinemas belo-horizontinos: “O que os Homens Falam”, comédia sobre relacionamentos protagonizada por um elenco latino estrelado, e o aclamado “Branca de Neve”, de 2012. A versão p&b e muda (leia mais na página 3) que leva o conto de fadas clássico para o universo das touradas em Sevilha é um dos filmes mais premiados da cinematografia espanhola contemporânea com uma realização técnica impecável que venceu dez prêmios Goya.

“Ele é um ótimo exemplo de como vem se desenvolvendo na Espanha um cinema de qualidade estética internacional, com grandes técnicos na fotografia, maquiagem, figurino, que têm sido exportados para a Europa e Hollywood, para além de diretores como Almodóvar, Juan Antonio Bayona e Alejandro Amenábar”, argumenta Espinós.

Outra característica marcante da cinematografia do país, segundo a curadora, poderá ser percebida em uma seleção de filmes dos anos 50. “A Isca”, dirigido por Ladislao Vajda em 1958, abre a mostra nesta quartam, às 17h, e será acompanhado por “O Apartamentinho”, de 1959, e “Distrito Quinto”, de 1957, revelando o forte caráter social da produção espanhola do pós-guerra.

“Na Espanha, quando as coisas estão difíceis socialmente, as pessoas desenvolvem uma criatividade muito especial”, revela Espinós. Isso associado ao surrealismo característico do país, à falta de orçamento e ao uso das cidades como cenário e reflexo do estado de espírito das pessoas, resultou num período muito fértil do cinema local. “São filmes bastante transparentes e críticos ao mesmo tempo. Sempre com muito rigor, mas com muito sorriso e imaginação, com a capacidade de rir de si mesmo, que é algo que compartilhamos com o Brasil”, avalia a curadora, já começando a estabelecer o diálogo entre as culturas.

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