Monumento com nomes de mortos na ditadura é inaugurado no Ibirapuera

Instalação é composta por cinco chapas brancas com os nomes grafados em baixo relevo e 21 placas distorcidas, com aspecto enferrujado, que representam a "irracionalidade" do período, conforme o autor Ricardo Ohtake

iG Minas Gerais | Da Redação |

Os nomes de 463 mortos e desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil (1964-85) compõem um monumento inaugurado nesta segunda-feira (8), em frente a um dos portões do parque Ibirapuera, em São Paulo.

A instalação, em homenagem às vítimas do regime, é composta por cinco chapas brancas com os nomes grafados em baixo relevo e 21 placas distorcidas, com aspecto enferrujado, que representam a "irracionalidade" do período, segundo o autor da obra, o artista e arquiteto Ricardo Ohtake. As peças são transpassadas por uma lança, arma mortal em simbologia á violência sofrida pelos homenageados. O artista conta que foi convidado há cerca de um ano para concretizar a obra. "Esse tipo de coisa a gente não aceita, agradece por ter sido o escolhido", disse.

Localizado no portão 10 do parque, o monumento faz vizinhança ao Comando Militar do Sudeste, antes Quartel-General 2 do Exército, e ao antigo prédio do DOI-Codi de São Paulo, considerado um dos maiores centros de tortura da ditadura. "É um local estratégico. Além da importância histórica, o Ibirapuera é visitado por gente de todos os bairros da cidade", disse o prefeito Fernando Haddad (PT).

Durante o evento, o petista discursou em meio a protesto de moradores da região do Parque dos Búfalos, na zona de sul da capital paulista. Com faixas e gritos, o grupo pediu a extinção de um projeto de construção de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida na área. Uma audiência pública para discutir o assunto foi marcada para o próximo dia 10, segundo Haddad. Uma das vítimas do regime presentes na inauguração, o jornalista Ivan Seixas, 60, foi preso e torturado, aos 16 anos, junto com o pai, o mecânico Joaquim Seixas, por fazer parte da luta armada contra a ditadura.

Segundo ele, o monumento e o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que tem divulgação prevista para a próxima quarta (10), devem aumentar a "comoção popular" sobre o tema, o que pode gerar resultados no que diz respeito ao ensino histórico do período nas escolas e à proibição de homenagens, em nomes de logradouros públicos, a militares envolvidos em casos de crimes políticos.

Para Clara Sharf, viúva do guerrilheiro Carlos Marighella, um dos maiores símbolos da resistência ao regime ditatorial, a conclusão das investigações realizadas pela comissão não é suficiente para pôr fim aos casos de mortes e desaparecimentos ocorridos durante o período. "Não vamos ter tudo resolvido só porque fizemos comissões. Não é simples assim", afirmou. A construção de um monumento em memória às vítimas é reivindicada há 25 anos por de familiares de mortos da ditadura, de acordo com Amelinha Teles, representante do grupo.

Durante discurso no evento de inauguração, a ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Ideli Salvatti, disse que são "mal intencionadas" muitas das pessoas que pedem, em manifestações, uma intervenção militar no Brasil. "Eles querem, novamente, impor o sofrimento ao povo brasileiro."

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