O maravilhoso mundo sonoro de Ariel Pink

Californiano lança álbum eclético e divertido após fim do grupo Haunted Graffiti

iG Minas Gerais | fábio corrêa |

Surrealismo. Ursinhos carinhosos, avôs tarados e batons vermelhos povoam o universo de Pink.
Sasha_Eisenman
Surrealismo. Ursinhos carinhosos, avôs tarados e batons vermelhos povoam o universo de Pink.

Com seu estilo drag, Ariel Pink pode parecer, à primeira vista, mais um artista excêntrico em busca de atenção. No entanto, logo na primeira audição de “Pom Pom”, lançado recentemente, fica claro que o visual reflete, sem contradições, uma pequena parcela do intrigante universo que povoa sua mente. É uma terra hedonista onde ursinhos pouco inocentes protagonizam romances de uma noite, nadam por rios de suco Tang e são ameaçados por armas letais feitas de batom. Tudo isso envoltos na psicodelia colorida de sintetizadores analógicos, que com suas texturas granuladas envolvem ótimas melodias compostas por um dos mais prolíficos compositores da atualidade. Depois de dezenas de discos gravados, a maior parte amadoristicamente, o californiano de 36 anos assinou, em 2010, com o selo britânico 4AD. Pela gravadora (também de Pixies e Stereolabs), “Pom Pom” é o primeiro de Ariel Pink sem a banda Haunted Graffiti, o que talvez contribua para que, neste disco, seu mundo particular aflore com mais força. Versátil. A viagem musical começa com “Plastic Raincoats”, cujos versos iniciais situam bem os desavisados: “O céu estava branco e preto e cheio de bolinhas/deve ter sido um dia Ariel/e de uma hora para a outra eu estava livre”. O clima sessentista, repleto de colagens, lembra os primeiros discos de Frank Zappa com o The Mothers. A partir daí, “Pom Pom” leva o ouvinte por 17 canções e simbólicos 69 minutos em uma viagem por temáticas absurdas em ambientes vintage e lo-fi. Algo como uma comédia surrealista filmada em VHS. O álbum passa pelas bem trabalhadas guitarras de “White Freckles” e pelo pastiche glam rock de “Four Shadows”. Já a dançante “Lipstick” versa sobre um assassinato feito com batom vermelho, Einstein e existencialismo. “O que é isso? Quem eu sou? Quem é isso?”, pergunta, num clima new-wave da melhor qualidade. Além do instrumental habilmente executado, vocais de qualidade colorem “Pom Pom”, do qual 11 faixas são parcerias. Como na folk “Put Your Numbers in My Phone”, escrita com Jorge Elbrecht, do Violens. No álbum, não há ecletismo que chegue. A veia hard-rock de Ariel Pink surge em “Sexual Athletics”, com seu riff de guitarra funkeado; o surf de “Nude Beach a Go-Go!” parece saído de uma viagem de ecstasy dos Beach Boys; e em “Dinosaur Carebear” (ursinho carinhoso dinossáurico), ouvem-se influências que vão da música oriental à circense. O lirismo torto do artista também não parece ter fim. “Black Ballerina” tem um avô apresentando uma stripper a um neto bobalhão, enquanto “Jell-O” é uma espécie de jingle de um Tang psicotrópico. Na progressiva “Exile on the Frog Street”, sapos viciados em jogatina zombam dos Stones. Mas se engana quem acha que Ariel Pink só se inspira no passado. Na grudenta “Picture Me Gone”, ele avisa: “Deixei meu corpo em algum lugar do México/Tente encontrá-lo pelo app ‘Find My iPhone’”. O disco termina com “Dayzed Inn Daydreams” (“Eu costuma sonhar/sonhar acordado/escondido no escuro”) e suas mudanças abruptas de direção, sem nunca perder a força das melodias. De tão pop, “Pom Pom” poderia até tocar no rádio. Mas talvez numa frequência maluca, de uma terra distante, onde o céu é cor de rosa. Em 4ad.com, o disco pode ser adquirido nos formatos digitais FLAC e MP3, ou fisicamente em CD ou num duplo LP. 

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