Um cinéfilo diferenciado

Apresentador do canal TCM, Robert Osborne oferece curiosidades sobre filmes e astros que conheceu pessoalmente

iG Minas Gerais | Dan Barry The New York Times |

Gravando, Robert Osborne, aos 82 anos, é a personificação completa do Turner Classics Movies (TCM) por reunir vasto conhecimento sobre cinema
DAMON WINTER
Gravando, Robert Osborne, aos 82 anos, é a personificação completa do Turner Classics Movies (TCM) por reunir vasto conhecimento sobre cinema

Nova York, EUA. Nas calçadas do bairro de Flatiron, há uma Manhattan sem melodrama, mas dentro de um edifício na rua 23 Leste, um homem de cabelos brancos e olhos azuis, muito bem vestido, quer entrar na sua casa, e dá a senha para sua grande fuga.  

“Olá, sou Robert Osborne”, ele diz.

E repete a frase mais uma vez, e outra, e outra, sorrindo para a câmera em um cenário aconchegante, que tenta recriar sua sala de estar. “Olá, sou Robert Osborne”, “Olá, sou Robert Osborne”, “Olá, sou Robert Osborne”.

Diga olá a Osborne, o apresentador do canal Turner Classic Movies, que está gravando as apresentações para os filmes que serão exibidos em dezembro. Como sempre, eles são organizados por temas tão atraentes que você se senta para assistir “Intriga Internacional” e quando se dá conta, já se passaram semanas e sua família o abandonou – e então você pode terminar de assistir “Levada da Breca”. De novo.

Robert Osborne é o mago que lança esse feitiço desde a primeira transmissão do TCM, há 20 anos. Ele é um cinéfilo único, oferecendo deliciosas curiosidades em breves introduções, dissecando filmes com convidados e entrevistando estrelas de uma determinada idade. Mas ele tem 82 anos, embora não aparente, e os executivos do canal preferem mudar de assunto – “Ei, dezembro é mês de Cary Grant!” – do que discutir uma era pós-Osborne, pois ele é a personificação completa da marca TCM.

O prato principal da manhã em que a reportagem acompanhou Osborne, que será dividido em porções durante várias semanas, inclui Janet Leigh, cinema de fantasia, Spencer Tracy, dois filmes com Burt Lancaster e Deborah Kerr, Ingmar Bergman e – em um toque tipicamente agradável do TCM – a grande atriz, mas nunca lembrada, Beulah Bondi.

“Seu grande arrependimento foi não ter representado Ma Joad em ‘As Vinhas da Ira’, de John Ford, papel que deu a Jane Darwell um Oscar”, diz Osborne, olhando para a câmera. “A seguir! Assista Beulah Bondi no encantador filme ‘Com um Pé no Céu’”.

A tênue ideia de intimidade melancólica nessa breve conversa – apenas uma de dezenas nesse dia e uma de milhares ao longo dos anos – é o que torna Osborne insubstituível. Ele, de fato, conhecia Jane Darwell, além de muitos outros da idade de ouro de Hollywood. Cerca de uma semana atrás, conversava com “sua amiga Olivia”.

Ou Olivia de Havilland, agora com 98 anos, que estreou em “Sonho de Uma Noite de Verão”. Em 1935.

Osborne pode identificar o momento que alterou o curso de sua vida: era 1941, ele tinha 9 anos de idade e sua mãe havia acabado de comprar a revista “Modern Screen” com Lana Turner na capa; lá dentro, o cartaz do filme “Garota de Encomenda”, mostrando os lábios supervermelhos de Mary Martin em um layout em preto e branco. Nascia uma obsessão.

O menino natural de Colfax, em Washington, logo começou a vasculhar décadas de exemplares antigos do “The New York Times” para registrar, em um caderno que ainda possui, os detalhes de cada filme que estreava, desde a sala de cinema até os minutos de duração.

Osborne estudou jornalismo na Universidade de Washington e serviu na Força Aérea em Seattle, o tempo todo tentando seguir a carreira de ator. O acaso veio na década de 50, quando participou de uma produção teatral regional com Jane Darwell, que convidou o belo e jovem ator para viver em sua casa de hóspedes, perto de Hollywood.

Ele acabou fazendo parte do grupo de atores fixos da Desilu Productions, de Lucille Ball; ela se afeiçoou ao jovem, em parte porque ele conhecia o trabalho de atores como Eric Blore e Donald Meek. Lucille o convidava para festas e casas noturnas e o apresentou a pessoas que o rapaz conhecia apenas de filmes e da “Modern Screen”.

Uma noite, ele jantava com Lucille, Kay Thompson e Joseph Cotten, entre outros, e começou a pensar, “Nunca em meus sonhos mais loucos eu imaginei que poderia...” Mas, então, parou. “Não tente se enganar, Osborne. Você sempre soube que um dia estaria convivendo com astros, sendo amigo deles”, ele se lembra de ter pensado.

Sua carreira como ator se resumia a comerciais e pequenas participações em programas de TV. A pedido de Lucille, ele desistiu de atuar para escrever, e publicou seu primeiro livro, sobre o Oscar, em 1965.

Na Hollywood de então não havia nostalgia, apenas atores e atrizes mais velhos que ainda não estavam preparados para aceitar o apagar das luzes da ribalta.

“Eles foram isolados como pessoas em uma ilha deserta”, disse Osborne, que mantém uma cortesia afável por trás das câmeras. “Conheci Paulette Goddard. Conheci Hedy Lamarr muito bem. Ninguém se importava com ela na época”.

Ninguém exceto Osborne.

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