Magia negra como o petróleo

iG Minas Gerais |

De certa forma tenho vergonha de abordar os assuntos desta coluna, mas a verdade é libertadora, e não dá para pensar neste momento em outra coisa que não seja um esclarecimento, pelo bem da pátria vilipendiada, das denúncias que inundam como tsunami a nação brasileira. Falar de que, e de quem, senão de tantas enormidades? No jornal “O Globo” de ontem foi publicada uma entrevista com Rosane Malta, primeira-dama de 1990 até a queda do presidente Fernando Collor, em 1992. Rosane tingiu de exótico seu curto reinado de primeira-dama, iniciado aos 26 anos. No papel de esvoaçante consorte do presidente, ela mostrou dispor de escassos atributos para tamanha tarefa, apesar de um diploma de administradora de empresas conseguido em Alagoas. Foi presidente da Legião Brasileira de Assistência (LBA) até ser torpedeada pelas acusações de favorecimento do irmão Pompílio Malta, que sumiu com verbas destinadas a flagelados da seca em Alagoas. Agora Rosane volta à cena, duas décadas depois, com declarações vulcânicas. Como uma delação que pretende chegar a um aumento da pensão de divorciada. Ela se diz “decepcionada” com o ex-marido que a enxotou em 2005, aos 41 anos de idade, pondo um final infeliz a uma união de 22 anos, atormentada pela ex-cunhada Thereza Lyra Collor. A mesma mulher do falecido Pedro Collor, irmão que desencadeou com suas revelações a CPI de PC Farias e a perda do mandato de Fernando. Rosane retrata que aos 15 anos, em Canapi, se encantou com o “príncipe” e subiu ao altar aos 20 anos, quando Fernando terminava a relação conjugal com a socialite carioca Lilibeth de Carvalho.

A década de ouro foi aquela de 80 para o casal, só de sucessos e alegrias, numa escalada vertiginosa iniciada em 1979 como prefeito de Maceió, seguindo para deputado federal, passando por governador de Alagoas e culminado em 1989 como o presidente mais jovem da República do Brasil. Color subiu a rampa do Planalto com 40 anos e com Rosane ao seu lado. Agora, aos 50, depois de ter-se casado em 2007 com o advogado que a assistia no divórcio, decidiu abrir o baú das lembranças, alertando que ainda terá um segundo volume se o ex-marido não melhorar os termos da divisão de bens do ex-casal presidencial. Fernando a liquidou toscamente em 2005, mandando encaixotar pertences dela que ocupavam as residências de São Paulo, Brasília e Miami. Ficaram mágoas, que fermentaram depois do casamento do ex-marido com a arquiteta e decoradora que tomava conta das residências do casal. Rosane é a única ex-mulher de Collor que não teve filho dele – pai de dois filhos do primeiro casamento, de um fora de casamento e de duas gêmeas do último. Rosane afirma que transitou pelo Palácio do Planalto com ingenuidade, falta de experiência, deslumbramento da filha do interior de Alagoas. Com essas limitações, todavia, presenciou coisas do arco da velha, descritas apenas “parcialmente e amenizadas” (diz ela) no livro que está chegando às livrarias, “Aquilo que Vi e Vivi”. Nas 288 páginas imputa ao marido a prática, entre outras, de magia negra da pior espécie. Ritos que pareciam existir em filme do terror. Prática de bruxaria da Idade Média, quando a florentina Catarina de Medici, casada com o rei da França, encomendava “missas negras” ao lado da cama do marido moribundo para salvar o trono aos filhos. A rainha nos ofícios macabros do século XVI fazia sacrificar jovens em idade pueril, ainda virgens, cuja vida era comprada dos pais e sacrificada nas “missas negras”. Rosane afirma que na Casa da Dinda, residência do casal em Brasília, a mãe de santo Cecilia chegou a usar feto abortado de uma serviçal para, assim, convencer as poderosas forças do mal a abrir o caminho da Presidência para o marido. Ainda lembra que a feiticeira teria tirado do caminho Silvio Santos, pré-candidato a presidente da República, apoiado por José Sarney, em 1989. Evidentemente, a apresentação do livro de Rosane na entrevista a “O Globo” pode interessar a Roman Polanski para um filme de terror. Essa notícia enche mais ainda de horrores uma semana que trouxe informações bombásticas do tamanho do rombo sofrido pelo país; chama a atenção a venda por US$ 1,5 bilhão de uma jazida na África que vale US$ 3 bilhões, como beneficiado o BGT Pactual. Mais ainda no surto de revelações, irrompe das profundezas uma lista do “doleiro Youssef” de 140 empreiteiras e as 747 obras que envolvem tudo que é federal, contaminam vários Estados e colocam prefeituras nas jogadas. Roubalheira institucionalizada e com regras de partição partidária do butim. Collor volta assim à cena e faz lembrar que caiu da Presidência apenas por um carro Elba, um automóvel que atendia Rosane nas compras da Casa da Dinda, que custaria hoje R$ 30 mil. Percebe-se que o mal da corrupção degenerou e cresceu exponencialmente de lá pra cá. A enormidade dos valores surrupiados não cabe debaixo de qualquer tapete. Espera-se assim que tudo isso vá à frente até libertar a nação de tanta roubalheira.

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