Fazer dieta engorda e provoca transtornos, diz nutricionista

Sophie Deram nutricionista e doutora em comportamento alimentar pela Universidade de São Paulo. Autora do livro “O peso das dietas”, que será lançado no próximo dia 15 de dezembro

iG Minas Gerais | Bernardo Almeida |

Arquivo pessoal
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Dietas que limitam o consumo de calorias ou que eliminam grupos alimentares inteiros não funcionam. E mais, contribuem para o desenvolvimento de distúrbios alimentares. É o que afirma a nutricionista franco-brasileira Sophie Deram, que publica no próximo dia 15 o livro “O Peso das Dietas”, após analisar mais de 30 estudos sobre o assunto. Ao mesmo tempo em que atendia casos de distúrbios alimentares no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, a nutricionista se especializou em estudar a interferência de outros fatores na saúde alimentar, tais como genética, psiquiatria e o local onde as pessoas fazem refeição. Ela conta como sempre foi avessa à ideia de dietas, e ressalta que o mais importante para ter uma alimentação saudável é disciplina e o prazer pela comida.

Em seu livro, a dieta é vilanizada como prática que não leva à redução do peso e ainda pode gerar distúrbios alimentares. Em que essa conclusão se baseia?

Eu nunca fiz dieta e nunca quis passar dietas para os meus pacientes. Quando se corta um grupo alimentar inteiro, a pessoa passa fome, mesmo que não sinta na hora. O nosso peso é controlado pelo cérebro, e quando você mexe no equilíbrio alimentar, você pode desbalancear o apetite. É o que ocorre quando se perde peso muito rápido, por exemplo. O corpo não aceita uma perda rápida sem se assustar. O metabolismo diminui, e o cérebro passa a pedir mais alimentos. Mas ele não pede comida saudável, não pede um brócolis, por exemplo. Pede alimentos energéticos, como massas, salgadinhos e doces. Nada deve ser cortado por inteiro. O alimento não deveria ser o inimigo, mas sim nosso aliado. E como você também aplica essa lógica para aconselhar pais sobre a alimentação das crianças? Eu incentivo os pais a não proibirem nenhum tipo de alimento, principalmente doces. Quando os filhos são proibidos de ingerir doces, eles consomem em segredo, e muitas vezes exageram quando vão a alguma festa. A noção do prazer também na alimentação é muito importante no equilíbrio da vida, e alimentos doces trazem esse prazer. Temos que comer por prazer. Uma vez atendi uma paciente muito interessante. Ela tinha 22 anos, e quando chegou ao consultório, fiquei em dúvidas sobre o que ela precisava, porque não aparentava ter qualquer problema. Quando a perguntei, ela disse que a mãe sempre a educou a se alimentar em um regime de dieta, e que ela queria desconstruir isso, queria desassociar o hábito alimentar do estresse. E como isso conduz a transtornos alimentares?

Esse desequilíbrio do cérebro deixa a pessoa propensa a desenvolver compulsão por algum desses alimentos “proibidos” ou, ao contrário, ela passa a negar as vontades do cérebro. Atendia três distúrbios no Hospital das Clínicas: bulimia, compulsão e inclusive anorexia, que historicamente sempre foi associada a um descuido da mãe, e recentemente foi passando a ser comprovadamente associada a fatores genéticos. A estimativa é que mais de 90% dos casos dessas três condições se originava a partir de dietas. Desde 1985, há estudos que indicam que uma dieta muito restritiva pode aumentar em até 18 vezes a probabilidade de uma pessoa desenvolver tais problemas. E além das chances de criar um novo obstáculo, a dieta tampouco resolve o anterior?

Exatamente. Nos baseamos inclusive em um estudo que compara dois irmãos gêmeos, e o que se submetia à dieta era justamente o mais gordo. Em 95% das vezes, quem adere a essas dietas mais radicais recupera o peso inicial ou mesmo ganha até mais do que tinha no começo, em um período que varia de seis meses a 2 anos. Um risco é a pessoa desenvolver o que chamamos de comer emocional. Por isso mesmo há um preconceito quando pessoas obesas são tachadas de preguiçosas ou indisciplinadas. Mas quem quiser perder peso, o que deve fazer?

Caprichar na qualidade e não ficar obcecado com calorias. Além disso, é essencial estabelecer uma rotina. Nós temos um relógio biológico, que deve ser obedecido. Não vou dizer que é necessários se alimentar a cada três horas, mas criar um padrão de horário de alimentação. E além disso, estender esse padrão às demais atividades, como dormir, ir ao banheiro e praticar exercícios físicos tentando preservar uma regularidade. Eu gosto de dizer que o comportamento é tão importante quanto os nutrientes ingeridos. Então é recomendável comer junto com alguém, sempre que possível, pois o ambiente também interfere no processo. Se esses estudos vêm comprovando há décadas que as dietas são inúteis, por que elas ainda são adotadas?

Acho que as pessoas ainda esperam soluções mágicas. Então sempre vão atrás de uma dieta nova porque a anterior não funcionou, com a sensação de que fracassaram. E por isso mesmo nós temos que desmistificar a nutrição. Essa noção de fracasso é equivocada, a dieta não é questão de força de vontade, é porque o cérebro não deixa. Por isso mesmo há um preconceito de que pessoas obesas são preguiçosas, sem disciplina, quando o fato não tem a ver com força de vontade. Vem, sim, de um desequilíbrio. Mas há algum exemplo de método alimentar que pode ser adotado por quem pretende ter uma alimentação saudável?

Não gosto de usar o termo dieta, apesar de chamarem dieta mediterrânea. Chamo de alimentação mediterrânea, que a ciência explica que é muito saudável, ao mesmo tempo em que ajuda a emagrecer, mas é um emagrecimento sustentável. Em resumo, temos que saber escutar o nosso corpo, comer de forma consciente, e ao invés de seguir dieta atrás de dieta, o ideia é procurar um acompanhamento.

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