Voluntários se destacam em momento de tensão na Ucrânia

Tropas podem lutar contra russos, diz governo; cidadãos temem fraqueza

iG Minas Gerais | Andrew E. Kramer |

Voluntários também pegam em armas, como no Batalhão Dnipro-1
Brendan Hoffman/The New York Tim
Voluntários também pegam em armas, como no Batalhão Dnipro-1

Dnepropetrovsk, Ucrânia. Em uma cozinha apertada que cheirava a repolho e beterraba, um pequeno exército de mulheres trabalhava noite adentro, preparando o que seria a refeição dos soldados ucranianos no campo.

Um saquinho de borscht desidratado, que parece muito com cavacos de madeira, é distribuído como um tipo de refeição instantânea suficiente para alimentar dez homens. Cada unidade é acompanhada de um bilhetinho escrito à mão, dizendo, “Bom apetite! Feito com carinho”. “Quem é que vai fazer borscht no Ministério da Defesa?”, questiona a obstetra Tatyana V. Sirko, voluntária no mutirão da cozinha, referindo-se à sopa tradicional do país. “Quero ajudar nossos homens como puder”, revela Tatyana.

Em agosto, com os rebeldes enfraquecidos por uma investida concentrada do governo, choveram tropas russas e equipamentos na fronteira para lançar um contra-ataque devastador, impedindo os ucranianos de avançarem.

Fragilidade. Uma trégua frágil, estabelecida no início de setembro, evitou a guerra declarada – mas, depois disso, a Organização do Tratado do Atlântico Norte já registrou a chegada de uma nova incursão de colunas armadas e tropas de elite russas. Porém, a presidência ucraniana e os separatistas pró-russos anunciaram na quinta-feira (4) um cessar-fogo total no leste rebelde a partir dessa terça-feira, em uma nova tentativa de acabar com meses de combates.

Embora o governo ucraniano insista em dizer que está em condições de rebater qualquer tipo de abordagem, os preparativos são cercados de segredo, o que muitos temem ser apenas um disfarce para a fraqueza. A maior parte dos reforços para as tropas agora vem de voluntários, que oferecem, além do apoio moral e físico, uma faísca de esperança de que as forças ucranianas consigam resistir contra o que parece ser uma força maior.

E eles não estão só no campo de batalha; as equipes, na maioria de mulheres, trabalham 24 horas por dia em um centro de logística para mandar uma variedade de produtos para os soldados.

Em uma sala, um homem empilha coletes à prova de bala costurados à mão – peculiaridade da guerra na Ucrânia, um país com uma rica tradição em trabalhos manuais, mas com um Exército carente de recursos. O pessoal lida até com tarefas que deveriam ser militares: em Zhovti Vody, mecânicos civis consertam caminhões e tanques velhos que quebram com frequência. “Nossos homens estão defendendo o país; tudo depende deles”, diz Natasha Naumenko, agente de viagens que organizou a operação.

O movimento é mais ativo em Dnepropetrovsk, cidade industrial a 241 km do fronte que acaba servindo de principal ponto logístico na guerra, mas já se espalha por todo o país. No oeste, em Lviv, por exemplo, moradores deixam doações em uma caixa em formato de tanque.

Os voluntários também estão combatendo: são entre 15 mil e 20 mil reunidos em 30 batalhões ativos no leste. “Sem a gente, a situação estaria muito pior. Somos advogados, empresários e donas de casa”, conta Vitaly Feshenko, ex-vendedor de móveis e atual vice-comandante do batalhão Dnipro-1.

Reconhecimento. Em um local protegido por sacos de areia, em um dia de novembro, soldados se reuniam perto de uma fogueira, comendo torrada com geleia caseira. “É o Exército do povo. Tem os que lutam e os que fornecem equipamento; o Estado não é intermediário, nem elo nessa corrente”, conta Mikola Fakas. Em relação aos que doaram a geleia, ele se diz muito agradecido. “São pessoas que amam a gente, confiam em nós e contam conosco”, diz o soldado.

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