Pelo legado da resistência

Luiza Bairros secretária de políticas de promoção da igualdade racial

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Imagem dos Povos
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Em Belo Horizonte no último dia 27 de novembro, Luiza Bairros veio abrir o 9º seminário internacional Imagem dos Povos, que teve o tema “Diversidade e Mercado Audiovisual”. Abaixo, ela fala sobre os motivos por trás dos obstáculos encontrados por negros e minorias no cinema e na TV, da maior visibilidade recente do racismo no país e do legado da cultura negra para a arte nacional

A senhora se identifica com o retrato que se faz do negro na TV e no cinema brasileiro hoje?

Geralmente, não. Acho que falta uma maior amplitude em termos dramatúrgicos para os personagens negros. Na maioria das vezes, você tem uma representação focada em determinados tipos – eu diria até que em certos estereótipos. Quando, na verdade, você tem pessoas negras participando da vida brasileira em todos os níveis. Elas batalham, trabalham, estudam, fazem planos. E isso tem que estar de alguma forma representado na dramaturgia. Nós já temos, no caso do teatro, várias companhias que desenvolvem um trabalho no sentido de dar essa dimensão do que é a riqueza da vida negra no Brasil e no mundo. E acredito que isso vai, com o tempo, contaminar outras áreas. Mas acho que existe uma resistência maior do ponto de vista de quem trabalha com audiovisual de reconhecer essa riqueza.

Por que essa resistência é tão maior na área do audiovisual?

Porque é uma área de produção de significados. E o racismo depende fundamentalmente disso: a que imagens estão associadas as pessoas negras. Então, quando se tem a possibilidade de trabalhar dentro dessa área, você está encampando uma disputa direta com a reprodução do racismo. Por isso, eu digo que é a área que mais dificilmente vai se render às mudanças e à diversidade porque aí reside um poder de produção de violência simbólica muito grande. E é através dela que você mantém a população negra em determinados lugares.

A baixa diversidade nas posições de diretor, roteirista e produtor no Brasil é inegável. Faltam ações afirmativas para reverter esse quadro, como já acontece nos EUA?

Uma atitude mais proativa no sentido da formação de profissionais nessa área é algo que, sem dúvida alguma, continua faltando. Por isso, acho tão importante iniciativas como essa do Imagem dos Povos, que faz com que os realizadores sejam capacitados para o desenvolvimento de projetos com uma qualidade competitiva, que tenham condições de concorrer a verbas públicas, serem realizados e virem a ser veiculados porque é isso que vai fazer com que a diversidade fique mais evidente nesse mercado. Mas a própria existência de cotas afirmativas nas universidades tem dado maior acesso a estudantes negros aos cursos de comunicação e cinema – e isso, num médio prazo, causará algum impacto na composição racial dos realizadores. E a senhora acha que é necessária uma reserva de vagas e cotas nos editais lançados pela Ancine ou pelo MinC, como acontece nas universidades? Ou algum edital específico para minorias?

A Secretaria do Audiovisual acatou muito bem uma proposta que fizemos para um edital voltado a jovens realizadores interessados em trabalhar com as situações da juventude negra no Brasil hoje. Agora, em relação a essas iniciativas mais robustas patrocinadas pela Ancine, nós não chegamos a abrir nenhum tipo de diálogo específico, tampouco fomos procurados para conversar a respeito. Mas não tenho dúvida de que todo o trabalho que nós desenvolvemos com o MinC ao longo dos últimos quatro anos fez uma intervenção afirmativa em várias áreas da cultura. O que precisamos agora é centrar um pouco mais no cinema e, obviamente, abrir um diálogo com as autoridades da área sobre iniciativas, que não passam necessariamente pelas cotas. É uma possibilidade, mas não a única. É preciso explorar outras dimensões. Como atuar com as comissões que trabalham nos editais e avaliam os projetos, colocando nelas pessoas que tenham esse olhar para a diversidade, que valorizem obras que remetem à questão da contribuição das matrizes africanas para a cultura brasileira. Ou incluir nos editais critérios que beneficiem projetos que venham de realizadores negros, por exemplo. O mito da falsa democracia racial dificulta esse tipo de ação no Brasil, diferente dos EUA em que o racismo é assumido como um problema?

O Brasil ainda tem dificuldade em reconhecer o racismo. Mas ela está cada vez menor. É possível perceber, de uns anos pra cá, uma visibilidade muito maior dos casos de racismo no país, que chegam inclusive a ser debatidos nos meios de comunicação. Cada vez menos, essa crença na democracia racial tem vigência. Obviamente, nunca vamos ser uma sociedade como a norte-americana porque são tipos de racismo que operam de maneiras muito diferenciadas. Nós precisamos, por exemplo, dar um salto nesses casos de mortes de jovens negros, que no Brasil chegam a 20 mil por ano e ainda não causam a comoção social que estamos vendo nos EUA. Isso está acontecendo lá porque casos assim estão ficando cada vez mais raros, enquanto no Brasil isso ainda é naturalizado. E isso é um efeito perverso do tipo de racismo que se exerce aqui, a ponto de se considerar que a vida de uma pessoa negra tem um valor menor que a de outro ser humano qualquer. Mas isso também está mudando porque, à medida que se tem uma população negra mais integrada social e economicamente, ela também terá demandas politicamente cada vez mais fortes para cima do Estado. Com relação a essa maior visibilidade, como a secretaria pode coordenar com a área da cultura para combater as manifestações de racismo e xenofobia ocorridas durante as eleições?

É muito importante hoje para nós a questão da representação e da produção de significados associados à experiência negra no Brasil. Porque, com a mobilidade social, você foi aos poucos provocando um deslocamento das identidades raciais. Hoje não é mais possível associar o negro a tudo que existe de negativo porque temos pessoas negras em lugares valorizados socialmente. E isso, do ponto de vista dos brancos, causa um desconforto muito grande porque eles vão caindo na real de que não são superiores. Essa superioridade é uma invenção do racismo. E têm que achar meios de demonstrar esse desconforto, desvalorizando e desqualificando o outro. Por isso, você vê o racismo tão explícito no Brasil, como não se via dez ou 15 anos atrás, quando parecia que os negros nunca iriam para lugar nenhum. E nós estamos preocupados com isso. Criamos com a Secretaria de Direitos Humanos e o Ministério da Justiça um grupo de trabalho que vai ajudar a identificar essas manifestações preconceituosas nas redes sociais, de maneira que se possa localizar mais facilmente de onde elas vêm para que a Polícia Federal tenha melhores condições de coibir esses ataques. E qual a opinião da senhora a respeito da polêmica envolvendo o seriado “O Sexo e as Negas”?

Acho que foi um exemplo muito poderoso de como se tem hoje dentro da população negra uma disposição muito grande de reagir a qualquer tipo de representação negativa. Foi algo que partiu, fundamentalmente, das mulheres negras, que estão muito conscientes do fato de que existe, na construção da imagem da mulher negra no Brasil, uma relação muito grande com a dominação sexual. E na medida em que o título da série apontou para essa possibilidade, a reação foi imediata. E isso dá para nós uma dimensão de que não somos mais a sociedade que éramos 15 anos atrás. Você tem uma população negra que se apropriou de formas de analisar como o racismo opera na sociedade brasileira e está pronta para reagir, em conjunto, pelas redes sociais, que foram extremamente importantes nessa reação. E mais do que isso, forçar mudanças em decisões, inclusive dos meios de comunicação. E como a senhora definiria o legado da cultura negra para a arte brasileira?

Um dos maiores legados, de maneira geral, é ter ensinado a como resistir e como sobreviver, mesmo dentro de uma situação histórica que tentou nos levar o tempo todo para o extermínio cultural. Essa capacidade de ter sobrevivido, que nós chamamos de resistência cultural, acho que não existe legado maior para o Brasil.

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