Quantos negros corruptos você conhece? – Primeira parte

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No “Inferno”, de Dante, os corruptos estão mergulhados em piche fervente, sem poder colocar a cabeça para fora
Intervenção sobre gravura de Gustave Doré, para “O Inferno”, de Dante
No “Inferno”, de Dante, os corruptos estão mergulhados em piche fervente, sem poder colocar a cabeça para fora

A Editora UFMG publicou, em 2008, o livro “Corrupção – Ensaios e Críticas”, organizado por Leonardo Avritzer, Newton Bignotto, Juarez Guimarães e Heloisa Maria Murgel Starling. São 63 textos de 61 pensadores. Suas 598 páginas são divididas em três seções: “Teoria política e corrupção”, “Corrupção, história e cultura” e “Questões atuais da corrupção”. Os autores são de áreas diversas, mas principalmente filósofos, historiadores e cientistas políticos, a maioria ligada a universidades brasileiras, com alguns estudiosos de outros países: EUA, México, Uruguai e Argentina. Panorama mais amplo e abrangente, impossível imaginar. BRASIL SÉCULO XX Um dos ensaios que integram “Corrupção – Ensaios e Críticas” tem como título “Passado, presente e futuro da corrupção brasileira” e foi escrito pelo historiador José Murilo de Carvalho. Começa assim: “Corrupção política, como tudo mais, é fenômeno histórico. Como tal, ela é antiga e mutante. Os republicanos da propaganda acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Os revolucionários de 1930 acusavam a Primeira República e seus políticos de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob a acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de caça aos marajás e foi expulso do poder por fazer o que condenou.” EUROPA SÉCULO XVII Já o filósofo Renato Janine Ribeiro, estudando o pensamento de Hobbes, resume o que acontecia na Inglaterra setecentista: “Hobbes tinha pouco mais de 30 anos quando o ministro Francis Bacon, visconde e filósofo, cujos ensaios nosso autor vertera para o latim (...), foi condenado por corrupção. Portanto, a corrupção dos políticos não era assunto ignorado por Hobbes. Foi esse, porém, o primeiro ‘impeachment’ da história constitucional inglesa. Até então, o Parlamento se limitara a avalizar os ‘bills of attainder’ de interesse da Coroa, pelos quais nobres caídos em desgraça eram mandados ao carrasco e seus bens, confiscados, sem processo legal, apenas por uma lei que os atingia e lhes tingia (= poluía) o sangue. Sob e contra Jaime I, contudo, o Parlamento começa a lutar por poder, e inicia com Bacon o julgamento dos ministros corruptos ou tirânicos – abrindo um processo que durará século e meio.” GRÉCIA ANTIGA Coube ao também filósofo Sérgio Cardoso repensar a corrupção sob as óticas platônica e aristotélica. Escreve ele: “A entrada do povo na cena do poder começa a balizar-se a partir do momento em que, pelo século VI a.C., em função das grandes transformações econômicas ocorridas em toda a Hélade, sentindo-se destituída de suas condições tradicionais de vida (privada, sobretudo, do acesso à terra, cada vez mais tomada pelos latifúndios exportadores de oliva e vinho, oprimida por dívidas e ameaçada por obrigações insuportáveis), a massa empobrecida começa a protestar contra a insensibilidade e a arrogância dos ricos (...) e a exigir o levantamento de barreiras legais contra a ambição e a prepotência desses poucos (oligoi).” Regime político ideal seria “o da polis justa, a ‘kallipolis’, governada pelo filósofo”. Aristocrata, era implacável com a democracia, para ele “o regime do abuso, da leviandade, da permissividade (...), o regime do nivelamento, do desprezo e ressentimento da maioria pobre pelos ricos e por qualquer autoridade”. Aqui, chamo a atenção para a palavra “ressentimento”, que parece estar no fundo de nossos conflitos recentes. Não são os pobres, no fim das contas, que travam a guerra fraticida de nossos dias, mas os ressentidos, aqueles que se sabem impedidos, pelos ricos, de compartilhar a riqueza. Daí a opção pela marginalidade desesperada, sem freio e mergulhada em sangue, que nenhuma polícia consegue – jamais conseguirá – vencer. ESCONDER OU MOSTRAR Na introdução, os organizadores explicam: “A história recente brasileira, particularmente depois da Constituição de 1988, mostra que a redemocratização do país tornou visíveis fatos que antes não chegavam ao conhecimento da opinião pública, mas não evitou que o fenômeno se repetisse. Dos escândalos do Governo Collor aos acontecimentos mais recentes envolvendo membros dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, as evidências de que a corrupção está longe de ser um acontecimento marginal no interior da vida pública se acumulam.” “A corrupção existe tanto em países democráticos quanto em países não democráticos, assim como em países com ampla liberdade de imprensa e em países com quase nenhuma liberdade de opinião. (...) Trata-se (O BRASIL) de um dos países que tem mudado fortemente os comportamentos públicos e privados em relação à corrupção.” “Do ponto de vista da percepção do cidadão, o Brasil enfrenta um dilema: quanto mais a corrupção é combatida, mais ela é noticiada, e quanto mais ela é noticiada, maior é a sua percepção.” O FUTURO QUE SE DESENHA Focados antes na esfera pública, os holofotes incendeiam agora a esfera privada. Se antes a corrupção só era visível nos funcionários dos governos, ela agora se tornou visível nas (serão centenas? milhares?) empresas corruptoras. O combate se tornou mais feroz do que nunca. A nós, combatentes da ética, cabe botar mais lenha na fogueira. Mas não dá para resumir 598 páginas numa crônica. Continuarei.

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