Para gerar elos com o teatro

Iniciativa iniciada durante a estreia de “O Gol Não Valeu!”, no Diálogos Cênicos, quer ampliar vínculo com o público

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

LEO FONTES / O TEMPO
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Quando Riva, personagem de “O Gol Não Valeu!”, aparece chegando em casa com a camisa do time de futebol preferido, a mãe pede para que ele troque de roupa. Torcedor de uma equipe conhecida por estar sempre na lanterna dos campeonatos, ele logo retruca, achando o pedido absurdo. Para o garoto, lavar aquela blusa era algo que trazia azar para o seu clube. Naquele momento, a plateia do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) foi à gargalhada e houve inclusive quem revelou: “Eu também já fiz isso!”.

Com grande presença de crianças, a estreia do espetáculo da ZAP 18, na última quarta-feira, foi marcada, assim, pela espontaneidade de Riva e do público. Este foi convidado a ampliar a sua experiência com aquela história, por meio de duas principais ações. A primeira delas foi o jogo de pebolim colocado na entrada do espaço onde os garotos puderam brincar entre si. Em seguida, após assistirem à peça, eles tiveram outra oportunidade de interação, desta vez com os atores.

Os cinco artistas que participam do espetáculo voltaram ao palco para um bate-papo com os espectadores. Rompida a timidez inicial, típica desses encontros, os estudantes de uma escola municipal de Ribeirão das Neves trouxeram curiosidades que miravam desde a cenografia do trabalho às preferências dos atores.

“A pipoca que vocês usam é de verdade?”, indagou uma menina. “Para qual time cada um de vocês torce?”, perguntou um garoto. Provocado pelo mediador Reginaldo Santos sobre o que existiria em comum entre o teatro e o futebol, outro menino do mesmo grupo definiu: “a emoção”.

“Por mais simples que pareça um comentário ou uma dessas perguntas, as falas deles são muito interessantes. Quando a garota cita a pipoca, por exemplo, ela está remetendo a um elemento cênico. Isso mostra que eles podem estar pensando: será que tudo no teatro é falso ou é de verdade? Ou seja, é possível desenvolver algumas ideias a partir dessas observações”, reflete Reginaldo Santos.

Primeira iniciativa de um projeto que vem sendo nomeado Escola de Espectadores, essas estratégias de aproximação fizeram sua estreia dentro da programação do Diálogos Cênicos. Ali foram colocadas em prática sugestões surgidas em conversas entre os participantes do Festival Estudantil de Teatro (Feto) deste ano.

Bárbara Bof, idealizadora do Diálogos Cênicos, ressalta, que, no Feto, vários profissionais se reuniram para pensar em alternativas capazes de contribuir para mudar um pouco o atual cenário em torno da criação e da fruição das produções teatrais. “Nós notamos que era recorrente um sentimento de insatisfação com esse cenário, seja em relação a condição dos profissionais do teatro ou da baixa frequência de público. Com a Escola de Espectadores, nós propomos, então, um trabalho a longo prazo que visa modificar um pouco esse contexto”, explica Bárbara Bof.

Em vez de lamentar dificuldades, Bof nota com isso a possibilidade de estimular a formação de público e de incentivar novos olhares para o teatro. Para alcançar isso, ela sublinha o foco nos estudantes, mas em outros segmentos também.

“Nossa intenção não é apenas dialogar com os alunos de diferentes níveis escolares, mas com o público em geral. A gente vem pensando que é importante criar outros vínculos com o teatro e acreditamos que isso deve ser feito de maneira sensível e afetiva para que as crianças, os jovens e os adultos possam continuar reverberando um pouco do que conhecerem aqui para si mesmas e para outras pessoas”, explica Bof.

De acordo com ela, a proposta será retomada em janeiro de 2015, quando acontecerá o Verão Arte Contemporânea. Para cada espetáculo, ela diz que será desenhada um tipo abordagem coerente com o conteúdo.

“No caso de ‘O Gol Não Valeu!’, nós pensamos nas mesas de jogo e nos bate-papo porque o público maior é infantojuvenil. Mas nós estamos estudando outras formas de provocar essas interseções, antes e após os espetáculos”, conclui.

Saiba mais A Escola de Espectadores vai continuar em algumas atrações do Verão Arte Contemporânea, em janeiro de 2015. São elas: Janela da Dramaturgia III; “Dente de Leão”, do Grupo Espanca, “Thácht”, do grupo Armatrux, e “Sarabanda”, entre outras.

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