Uma cena pujante

4ª Mostra Cantautores espelha uma prolífica, vasta e diversificada geração de compositores e intérpretes em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Daniel Barbosa |

Mostra. Nome novo na cena de BH, Téo Nicácio divide a atividade de músico com a de artista de rua
Maria Carolinna Camilo / Divulgação
Mostra. Nome novo na cena de BH, Téo Nicácio divide a atividade de músico com a de artista de rua

Desde Ary Barroso e Ataulfo Alves, passando pelos artífices do Clube da Esquina, Minas Gerais sempre foi um vasto e rico celeiro de compositores que são também intérpretes de suas próprias obras. Mas o fato é que o atual cenário, moldado a partir dos anos 2000, notadamente na capital do Estado, talvez não encontre precedentes em termos de quantidade e qualidade do que se produz. A Mostra Cantautores, idealizada por Luiz Gabriel Lopes e por Jennifer Souza para dar visibilidade, em formato intimista, a essa portentosa safra de autores/intérpretes, oferece ao público, a partir desta segunda, em sua 4ª edição, um pequeno painel dessa profusão criativa.  

Expoentes desta cena apontam duas características que a configuram: a proximidade entre seus protagonistas e a pluralidade de estilos que abarca. “Os cantores e compositores da geração atual são figuras que estão no trânsito de uma movimentação cultural em Belo Horizonte. Tem um ponto de conexão que passa pela coisa da redefinição da cidade, com os vários movimentos de ocupação do espaço público e de diálogo da cena musical com a esfera política”, diz Luiz Gabriel Lopes.

Rafael Martini, que lançou seu primeiro disco solo, “Motivo”, em 2012, concorda que a relação entre os músicos da cidade se estreitou ao longo dos últimos anos, sobretudo a partir do projeto Reciclo Geral, que, entre 2002 e 2003, com uma proposta similar à da Mostra Cantautores, promoveu uma série de shows com os então novos compositores e intérpretes locais. “O Reciclo fundou essa ideia de interação entre os músicos. A grande diferença é que hoje todo mundo se visita muito, está todo mundo ligado no que o outro está fazendo e trabalhando junto”, diz.

Escalado para a 4ª Mostra Cantautores, Téo Nicácio morou em Contagem, onde mantém o grupo Batucanto, até 2011, passou um breve período na cidade de Florestal e fixou residência em BH há apenas dois anos. Com o olhar de quem vem de fora, ele também destaca a força da cena local. “Fico muito impressionado, a cada dia conheço compositores novos que eu não sabia que existiam. Não é uma produção que está tocando no rádio, mas quando você passa a prestar atenção, vê que tem muita gente fazendo coisas muito boas, o que acaba possibilitando as trocas criativas”, diz.

Essa proximidade entre os músicos não implica, contudo, uma estética compartilhada. “Vejo um olhar de fora um pouco viciado, que insiste nessa coisa das harmonias mineiras elaboradas, mas acho que a gente já passou disso. Sem desconsiderar o que houve antes, mas não é mais isso que está em jogo, existe uma variedade tão grande que acho difícil apontar um traço em comum. Está todo mundo buscando achar a própria voz”, considera Rafael Martini.

“A gente poderia dizer que a música mineira, nos seus mais variados fazeres, costuma ter uma preocupação maior com a harmonia, mas essa é uma questão genérica, porque realmente tem gente fazendo de tudo, tem aqueles que trafegam num lugar de quase fusão da música popular com a erudita ou com o jazz, outros num diálogo mais estreito com a tradição”, diz Pablo Castro, que, com Makely Ka e Kristoff Silva, gravou o emblemático disco “A Outra Cidade”, fruto direto do projeto Reciclo Geral.

“Em termos estéticos, é muito difícil falar das particularidades da cena atual. Você tem pessoas fazendo coisas muito diferentes entre si. Tem o pessoal do samba, tem o pessoal do rock e tem quem faça uma mistura de tudo isso. É difícil essa coisa da identidade estética, ela é muito variada. Agora, a questão dos coletivos é que tem me chamado muito a atenção nos últimos anos como um traço distintivo da música em Minas. A cooperação entre os projetos e a articulação política dos artistas locais é uma coisa de momento histórico”, diz Dudu Nicácio, que também despontou a partir do Reciclo Geral e de lá para cá já lançou quatro discos.

Programação Mostra Cantautores No Teatro Oi Futuro (av. Afonso Pena, 4.001, Serra) Segunda 18h: Aula-show de Zé Miguel Wisnik (SP), com abertura de Rafael Martini (MG) 20h30: Guinga (RJ), com abertura de Pedro Carneiro (RJ) Domingo, dia 14 17h: Tó Brandileone (SP), com abertura de Luiza Brina (MG) 19h: Sergio Santos (MG), com abertura de Pablo Castro (MG) Na Funarte MG (rua Januária, 68, Floresta) Terça-feira, dia 9 20h30: Pamelli Marafon (MG) e Iara Rennó (SP) Quarta-feira, dia 10 20h30: Laura Catarina (MG) e Téo Nicácio (MG) Quinta-feira, dia 11 20h30 - William Serra (MG) e Thiago Amud (RJ) Sexta-feira, dia 12 20h30: Vinikov (MG) e André Travassos (MG) Sábado, dia 13 20h: Tiganá Santana (BA) 21h30: JP Simões (POR) Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave