Feriado perfeito

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Feche os olhos e imagine o que seria um feriado perfeito para você. Imaginou? Se a imagem que passou pela sua cabeça foi parecida com: acordar tarde, tomar um café da manhã bem tranquilo, ler um livro deitada na rede da varanda, tomar sol no quintal de casa, almoçar em um restaurante japonês às 15h, pegar um cineminha, ir para um barzinho bater papo com os amigos, encontrar o namorado e ficar fazendo nada a dois até tarde; parabéns, você é do meu time e vai entender exatamente o que me motivou a escrever esta crônica. Tudo estava indo conforme meus planos. Até a parte do café da manhã. Foi quando eu recebi um telefonema-convite: “Quer fazer uma caminhada e passar o dia em uma cachoeira linda, ao lado de uma represa natural? Queria que você fosse comigo”. Assim mesmo, nessa ordem, e, como o “queria que você fosse comigo” foi muito convincente, eu esqueci um pequeno detalhe: eu detesto cachoeiras. Eu sempre digo que cachoeiras não têm nada além de mato, mosquito e água gelada. E a cada ida a uma delas eu confirmo mais a minha teoria. Na verdade, tudo começou muito bem. Uma trilha superbonitinha, parecendo aquela do Joãozinho e Maria indo pra casinha doce... Mas, de repente, a mata foi se fechando, e eu estava vendo a hora em que a Bruxa de Blair ia aparecer pra me pegar. Acho que o amor que eu tenho pelo mato é igual ao que ele tem por mim. E, por isso, ele me castiga. Quanto mais eu ia pisando nele, mais ele me arranhava, puxava o meu cabelo, agarrava a minha roupa... Com muito custo, chegamos a outro “pavimento”. E foi a vez das pedras. Tivemos que atravessar um riozinho cheio de pedrinhas redondinhas... e cheias de limo também! Na primeira delas escorreguei, molhei a roupa toda e constatei que realmente a água das cachoeiras sempre vai estar (seja inverno ou verão) com a temperatura abaixo de zero. Naquelas alturas, meu humor já estava péssimo, e eu só conseguia falar (melhor seria dizer “rosnar”) que a imagem que eu tenho do inferno era algo muito parecido com aquilo ali, só que com algumas cobras e aranhas escondidas no meio daquele matagal. Antes não tivesse falado nada. Aranhas e cobras – graças a Deus – não surgiram do nada, mas elas mandaram seus amigos mosquitos e carrapatos. Eu acho que cada ser vivo foi destinado a habitar um determinado lugar do planeta. E todos devem respeitar isso. Se os carrapatos não inventam de invadir a casa da gente, por que a gente tem, então, que invadir a casa deles? Eu também morderia! E eles morderam mesmo. Contabilizei 137 picadas (contando também as dos mosquitinhos borrachudos) espalhadas por toda a extensão da minha frágil pele de “menina criada em apartamento”. Depois disso tudo, de ter aguentado, pacientemente, o maravilhoso “passeio ecológico” e de ter ficado admirada com o fato de que realmente existem pessoas que gostam (e não é encenação!) daquilo ali, que pulam na água congelada, que desbravam a floresta com as próprias mãos, que compram mochilas especiais com armazenamento de água para aguentar o inferno (ops, a caminhada) por mais tempo, me peguei muito curiosa para entender o que leva uma pessoa a gostar de mato e outras a preferirem a civilização. Será genético? Acho que não, meu pai é do time das cachoeiras, e eu não herdei isso dele. Seria criação? Provavelmente, também não. Fui muito incentivada, quando criança, a conviver pacificamente com a natureza, e não deu certo. O que será então? Se alguém souber, me avise. Você, leitor, deve estar se perguntando o porquê de eu ter me submetido a passar um dia assim se já sabia de antemão que não iria gostar... Eu esclareço. Foi aquele “queria que você fosse comigo” que eu contei no primeiro parágrafo... Porque tem certas pessoas que – por algum mistério ainda maior do que o que leva alguém a gostar de mato – exercem sobre a gente a vontade de estar com elas até no inferno (apesar dos carrapatos). Porque algumas pessoas têm o poder de apagar experiências passadas da nossa memória e pensar que desta vez vai ser diferente. Porque tem pessoas que com um simples convite varrem todos os nossos planos pelo simples prazer de passar um dia inteiro em sua companhia. Mas agora a minha memória já foi refrescada, e eu já até planejei o meu próximo feriado. Vai ser perfeito. Acordarei tarde, tomarei sol, almoçarei em um restaurante, irei com minhas amigas a algum barzinho e, então, vou encontrar o meu namorado e dar o castigo merecido: iremos para um shopping bem urbanizado, com muito ar-condicionado, assistir a um filminho bem água com açúcar e depois lanchar no McDonald’s. Porque por amor a gente suporta qualquer coisa. Desde que a recíproca seja verdadeira.

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