Memórias de um artista que partiu cedo demais

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Artista também se dedicou à ilustração de publicações pelo país
Amara photos/divulgação
Artista também se dedicou à ilustração de publicações pelo país

A ideia do livro “Monsã: Uma Vida na Ponta do Lápis”, biografia do cartunista Monsã, surgiu da pesquisa de mestrado do historiador André Mascarenhas, que estudava justamente os caricaturistas dos grandes jornais de Belo Horizonte nas décadas de 20 e 30.

O trabalho pretendia estabelecer uma relação direta entre esses e os artistas modernistas que despontavam em São Paulo e no Rio de Janeiro, depois da Semana de Arte Moderna de 1922. Entre os cartunistas estão Delpino Júnior, Hildebrando Pimentel, B. Lima, Érico de Paula e Monsã. “Esses artistas andavam esquecidos até por nós, da história”, lamenta Mascarenhas. “Só de uns tempos para cá, esse olhar sobre o modernismo mudou. A ideia era que o modernismo só teria chegado a Belo Horizonte no fim da década de 30 e com aquela semana promovida pelo JK, em 1944”, pontua.

Em sua pesquisa por acervos pessoais dos artistas, o historiador conheceu o único filho de Monsã, João Baptista, que, além de desenhos do cartunista, tinha guardado consigo um antigo desejo familiar de escrever uma biografia sobre a trajetória de seu pai. “Infelizmente, minha mãe e minhas irmãs não estão vivas para ver a biografia de nosso pai ficar pronta”, lamenta Baptista, que hoje tem 74 anos.

Terminado o mestrado, Mascarenhas convidou uma antiga conhecida, a historiadora Maria Inês Cândido, para levar o projeto adiante. O resultado é um livro imponente, balanceado entre textos e imagens e que conta parte da história do cartunista, do modernismo e da profissionalização dos jornais em Belo Horizonte. “A imagem é um conteúdo e fala mais alto nesse livro. Tivemos poucas fontes bibliográficas”, comenta Cândido.

A grande dificuldade encontrada pela dupla de historiadores foi conversar com artistas contemporâneos de Monsã, todos eles já falecidos. O artista morreu precocemente, em 1940, aos 37 anos. João Baptista mesmo não conviveu com seu pai, porque ele nasceria no ano de seu falecimento. “Foi um obstáculo, porque ele morreu de forma muito prematura, poucas pessoas vivas tinham contato mais próximo com Monsã. As filhas faleceram, os artistas também já morreram, com exceção de um cunhado, Vicente de Paula, que morreu há menos de um ano, não sem antes contar sobre a experiência de vida de Monsã”.

A oportunidade de remexer nos desenhos do pai trouxe para Baptista recordações de um tempo que ele não viveu. “Minha relação com meu pai veio das histórias que minha mãe e os amigos dele me contavam. Hoje, eu vejo que eles tentavam não deixá-lo cair no esquecimento”, pontua. Além disso, Baptista lembra do tempo em que a família ainda vivia em Belo Horizonte (hoje, ele mora em Brasília, e, pouco depois da morte do pai, a família se mudou para o Rio de Janeiro).

Foram os desenhos, armazenados em um cômodo do barracão de fundos da casa, que mostraram a ele o artista que seu pai foi. “Mais velho, com um pouco mais de consciência, eu pude cuidar daquele material e saber da importância de tudo aquilo”, revela.

Na tênue fronteira entre a intimidade da vida de Monsã com sua família e o legado do artista que narra a história do modernismo em Belo Horizonte, nasceu um livro que, para Baptista, é um relato importante do seu tempo. “Creio que vai contribuir para as novas gerações avaliarem o que foi e como meu pai contribuiu para o surgimento do modernismo. Esse lado cultural é muito útil para a juventude. O livro é um misto de história da arte e história de Belo Horizonte”, finaliza.

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