Traços de uma BH moderna

Cartunista Monsã, artista dos anos 20 e 30, ganha biografia que se confunde com história modernista da cidade

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

ta06011foto : Reprodução Monsã
ta06011foto : Reprodução Monsã

BH sempre foi tida como uma cidade a que as expressões artísticas chegam depois de aportar nos dois maiores centros econômicos e culturais do Brasil: Rio de Janeiro e São Paulo. Essa lógica também valeu, por muito tempo, para o movimento modernista, quando historiadores da arte restringiam o recorte de sua pesquisa apenas para obras das artes plásticas e ignoravam outras expressões. O cartunista Monsã, um dos importantes artistas dos primórdios do modernismo aqui, ganha uma biografia, “Monsã: Uma Vida na Ponta do Lápis” (Editora C/Arte, 224 páginas), que será lançada hoje, no Museus das Minas e do Metais, e que comprova que a capital das alterosas estava antenada com a vanguarda paulistana e carioca, no idos dos anos 1920 e 30.

“Belo Horizonte tinha uma vida cultural muito mais agitada do que se imagina”, comenta o historiador André Mascarenhas, um dos responsáveis pela pesquisa e escrita do livro. “Lembra-se apenas da vocação modernista da literatura mineira nos primórdios do movimento, com Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e outros autores”, completa.

O livro recobra o período em que a cidade começava a despontar realmente enquanto capital do Estado – vale lembrar que Belo Horizonte, com o nome de Curral Del Rey, nasceu em 1897 – com obras importantes e com um ritmo de vida mais intenso.

Nascido em São João Del Rei, Monsã veio para a capital no início dos anos 20. É nessa época que a imprensa passa por um período de grandes transformações estruturais na maneira como os joreram impressos. “Isso coincide com a chegada do modernismo. A imagem desenhada por Monsã é muito moderna e em consonância com o movimento nacional, na mesma qualidade. Ele é um representante extraordinário dessa relação (entre modernização da imprensa e a arte moderna)”, comenta Maria Inês Cândido, historiadora, que assina o livro juntamente com Mascarenhas. nais

Os caricaturistas, então, passam a ser narradores visuais dessa transição moderna das grandes cidades com espaço nos jornais diários. “A caricatura é uma forma imediata de captar a transformação da cidade, da modernização. Nós estamos falando de verdadeiros artistas, que, com perspicácia, narraram parte da nossa história. Eles deixaram de ser aristas-caricaturistas e passaram a ser caricaturistas-jornalistas”, ressalta Mascarenhas. “O interessante é pensar que o homem moderno é aquele que se propõe a viver e, no caso de Monsã, também registrar esse mundo, com suas mudanças”.

Domingos Xavier Andrade, ou Monsã, faz parte da geração de intelectuais e artistas precursores do modernismo em Belo Horizonte. Detentor de amplos recursos, com traço inconfundível, ele transitava com habilidade e desenvoltura entre diferentes linguagens da criação visual; a caricatura era apenas uma delas. No seu repertório, havia espaço para a ilustração, as artes gráficas e o desenho ornamental, produzindo uma grande diversidade de publicações: jornais, revistas, livros, materiais de publicidade, projetos arquitetônicos e de artes aplicadas. “Ele tem um papel importante em Minas, dentro de um contexto nacional, com a modernização da imprensa nos anos 20 e 30, quando a caricatura ganha espaço, porque ela tem uma repercussão rápida e diária. Até hoje, nós conhecemos e sabemos que são os nossos caricaturistas”, pontua Cândido.

Para André Mascarenhas, “Monsã: Uma Vida na Ponta do Lápis” é fundamental “para não deixar essa história ainda mais esquecida”. “É um resgate de memória, e, quanto mais o tempo passa, mais difícil ficaria resgatar essa história. Além disso, valoriza a arte da cidade. Ela se enriquece porque Belo Horizonte teve uma vida cultural, artística e múltipla que merece ser conhecida”, finaliza Mascarenhas.

Os interessados podem também adquirir o livro na página da Editora C/Arte: www.comarte.com

 

 

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