Pagão dá lugar ao sacro

De domínio religioso cristão, o Natal ganha elementos míticos nos países nórdicos

iG Minas Gerais | Tânia Ramos |

Árvore de Natal da praça Vermelha,em Moscou
Alexander Zemlianichenko/AP
Árvore de Natal da praça Vermelha,em Moscou

O dia de Natal, como o conhecemos hoje, é uma festa religiosa cristã que comemora o nascimento de Jesus Cristo, segundo o calendário gregoriano, em 25 de dezembro – com exceção dos países eslavos e ortodoxos, onde, baseados no calendário juliano, a data é lembrada em 7 de janeiro.

Acredita-se, contudo, que a data da Natividade foi tomada emprestado de uma festa pagã: o solstício de inverno, em que se celebrava o nascimento anual do deus Sol, e adaptada pela Igreja Católica, no século III d.C., a fim de converter os povos pagãos.

Enquanto o ato de presentear durante o Natal, atualmente inspirado na figura mitológica do Papai Noel, teria se originado no século IV das doações de um homem real: São Nicolau, arcebispo de Mira, na Turquia. O religioso ajudava anonimamente quem estivesse em dificuldades financeiras, colocando sacos com moedas de ouro nas chaminés das casas. Nos folclores grego e bizantino, tal façanha é atribuída a Basílio de Cesareia, daí a troca de presentes na Grécia ocorrer em 1° de janeiro, dia de São Basílio.

Nórdicos

Ao ser transformado em Papai Noel, o que teria acontecido na Alemanha, o personagem também migrou da Turquia para o Polo Norte, vivendo hoje na Lapônia, uma província autônoma que se espalha por quatro países (Finlândia, Noruega, Suécia e Rússia). Não é à toa que os países nórdicos, assim como a Rússia, tenham uma forte tradição nos festejos natalinos.

Na Finlândia, o país, dentre os quatro que abrangem o território lapão, denominado “a terra do Papai Noel” desde a Idade Média, declara-se ao meio-dia de 24 de dezembro: “Rauhallista joulua” – “tenha um pacífico Natal” –, via meios de comunicação. Os finlandeses ainda visitam os túmulos de familiares para acender velas e aproveitam uma relaxante sauna antes da ceia e da troca de presentes.

Na Noruega, ainda hoje misturam-se tradições antigas – e pagãs, como deixar um pouco de grøtt (arroz-doce) na varanda para os gnomos – com rituais modernos, sendo uma festa focada na família. Na ceia, um dos pratos típicos é o lutefisk, bacalhau marinado num tipo de soda cáustica, o que resulta numa textura bem estranha.

Chamado Jul (nome de uma festa pagã, mas associado agora a Jesus Cristo), assim como na Noruega, o Natal na Dinamarca também aposta no convívio familiar e com amigos. Na ceia, os carros-chefe são flæskesteg (carne assada) e gåse steg (ganso assado), além de muitos doces típicos, a exemplo do risengrød, um arroz-doce com leite, açúcar e canela, com manteiga espalhada sobre tudo, conhecido como o prato de Papai Noel e seus duendes. Na capital, Copenhague, há a tradicional árvore do City Hall (Rådhuspladsen), que é acesa em 1° de dezembro desde 1914.

Regado a uma espécie de vinho quente, chamado glögg, o Natal na Suécia é pura tradição, com casas decoradas com cortinas vermelhas e pinheiros (quase sempre naturais) cheios de enfeites. Os suecos sempre trocam cartões de Natal, que, impreterivelmente, têm que ter versos que rimam.

Uma ode à amizade e a doçura

Amigo-oculto: A brincadeira de amigo-secreto surgiu entre os povos nórdicos para selar os laços de amizade. No fim do ano, eles faziam uma grande festa, e, no início da noite, eram distribuídas runas aleatoriamente entre os participantes. Como cada runa tinha o seu par, as pessoas que tivessem runas iguais seriam os amigos-secretos que se uniriam para festejar a amizade. Ao amanhecer, todos se reuniam e trocavam os presentes.

Na Rússia: Ao contrário dos demais países, em que a carne é o carro-chefe da ceia de Natal, na Rússia o cardápio natalino prevê pães, grãos, nozes, batatas, frutas e bastante mel, para que todos tenham muita doçura no ano seguinte, mas nenhuma carne. À mesa, é comum algumas famílias colocarem um lugar para os parentes mortos, a exemplo de Portugal. Lá, o Natal é comemorado no dia 7 de janeiro.

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