A força do bem

Pesquisas feitas nos Estados Unidos e no Canadá comprovam que benfeitores são mais felizes, envelhecem com mais saúde e têm a expectativa de vida aumentada; confira exemplos de altruístas que realizam sonhos de Natal

iG Minas Gerais | Jessica Almeida |

Parceria: Integrantes da Força do Bem fotografados pela Expedição Sorria, que registra projetos sociais
Felipe Temponi/Expedição Sorria/Divulgação
Parceria: Integrantes da Força do Bem fotografados pela Expedição Sorria, que registra projetos sociais

Por volta de setembro, o funcionário público Paulo Cezar de Souza, 62, começa a mudar ligeiramente a aparência, deixando crescer pelos brancos no rosto em vez de raspá-los. Quem o conhece há mais tempo, sabe que a barba que está sendo cultivada tem um propósito nobre: há 20 anos ele se veste de Papai Noel para fazer visitas a escolas e instituições de apoio, levando presentes e alegria a muitas crianças. 

De um simples convite, no início, para entregar guloseimas preparadas pelas professoras em uma escola, Paulo passou a arrecadar brinquedos no escritório em que trabalha, depois de começar a receber cartinhas dos meninos nos encontros. A coisa acabou crescendo tanto que só este ano ele vai entregar cerca de 1.500 brinquedos em 12 instituições.    Que ações como a de Paulo fazem bem para o outro é evidente. O que muita gente talvez não saiba é que elas são benéficas também para quem as pratica, como ele mesmo relata. “Não tenho palavras para explicar o que sinto quando vejo um sorriso no rosto de uma criança, os meninos me abraçando, pulando, brincando – porque eu não sou Papai Noel que fica sentado, não. E não tem terapia como essa, é melhor que ir à academia”, diz.   Não é só o depoimento do Noel belo-horizontino que atesta a relação, ela também é comprovada cientificamente. Um estudo divulgado em fevereiro deste ano e conduzido por psicólogos das universidades de Harvard, da Colúmbia Britânica e de Simon Fraser disponibilizou dinheiro para os participantes analisados e orientou metade deles a gastá-lo consigo mesmos e a outra metade com outras pessoas.   A constatação foi que no segundo caso eles manifestaram mais felicidade do que no primeiro. Mesmo quando o experimento foi realizado com pessoas que tinham problemas financeiros, a situação observada foi similar. “Estes resultados sugerem que a capacidade de sentir alegria ao doar pode ser uma característica universal da psicologia humana”, escreveram os pesquisadores no estudo.   Já uma outra pesquisa, essa da Universidade de Michigan, foi além e, ao analisar mais de 10 mil pessoas, concluiu que aquelas que se voluntariavam para ajudar os outros eram propensas a viver quatro anos além das demais. “Isso provavelmente acontece porque nos tornamos mais hábeis a lidar com o estresse, grande desencadeador de doenças graves, como as cardiovasculares e câncer”, explica a psicóloga Sara Konrath, uma das responsáveis pelo estudo.   Bem pra si mesmo   Paulão Papai Noel, como Paulo Cezar também é conhecido, atua o ano inteiro, fazendo outras campanhas e arrecadando donativos sempre que conhece alguém que precisa. “Agora mesmo estou tentando conseguir uma cadeira de rodas para um jovem de 15 anos com paralisia cerebral”, conta.   A funcionária pública Patrícia Duarte Mendes, 60, colega de trabalho de Paulo, é testemunha de suas ações e de que as pesquisas realmente fazem sentido. “Num desses 20 anos ele não pôde ser Papai Noel por determinação médica, é cardíaco, tem diabetes, quase não enxerga. Mas é apaixonado pelo que faz e é muito claro como isso dá forças para ele superar seus problemas de saúde”, afirma.   Vontade sincera   Mas existe um porém, como observa Sara Kornath. “Constatamos que a capacidade de lidar com o estresse é especialmente melhor quando os voluntários são mais focados nos outros do que em si mesmos”, afirma.    É esse o caso da publicitária Isabella Novais, 29, e seus companheiros da Força do Bem, um grupo de aproximadamente 100 pessoas que se reúne para ajudar os mais necessitados. O projeto atua o ano inteiro, levando doações e um pouco de alegria a hospitais e casas de amparo a crianças e idosos. Atualmente, eles cumprem a agenda de Natal e têm a meta de arrecadar 4.000 brinquedos para os meninos das instituições parceiras. “É um privilégio poder fazer alguma coisa por alguém, dá mais sentido à vida, nos faz sair da zona de conforto, dar mais valor a tudo o que temos”, diz.   Os participantes sempre vão fantasiados e propõem brincadeiras para as crianças. Para os mais velhos ou hospitalizados, levam música ou simplesmente dão um pouquinho de atenção e carinho. “Me tocou muito quando servimos risoto numa das instituições e uma senhora não sabia o que era. Uma coisa tão comum, para nós”, lembra.   PAPAIS E MAMÃES NOÉIS POR UM DIA   Com a proximidade do Natal, cartinhas endereçadas a Papai Noel ou a Papai do Céu começaram a surgir em algumas das caixas de coleta dos Correios, espalhadas por Belo Horizonte. Os carteiros, sem saber o que fazer, começaram a abrir as cartinhas e, emocionados com os pedidos, se mobilizaram junto a outros funcionários para realizar os pequenos sonhos das crianças.   A iniciativa foi institucionalizada e chamada de “Papai Noel dos Correios”. Em 2014, ela completa 25 anos e foi difundida para todos os Estados do Brasil, recebendo mais de 1 milhão de cartas no ano passado. Só em Minas, foram mais de 120 mil, das quais 98% foram atendidas. É o maior percentual de adoção do Brasil, que teve uma média de 78%. “Os 2% não atendidos aqui foram de padrinhos que pegaram cartas e não entregaram o presente”, explica Paulo Fernando de Almeida, 36, coordenador da campanha em Minas Gerais.   Envolvido com a iniciativa há mais de 12 anos, ele conta que já viu os pedidos mais inusitados, a maioria deles, comovente, já que se tratam de crianças em situação de vulnerabilidade social. “Houve um garoto, em 2002, que pediu para conhecer seu pai. As pessoas que trabalharam na campanha se mobilizaram e conseguiram localizá-lo, ele era taxista aqui em Belo Horizonte. Promovemos um encontro entre os dois numa agência dos Correios”, lembra.   Os pedidos mais simples são aqueles que mais tocam o coração. “Já recebemos carta de um menino que pedia uma toalha porque na casa dele só havia uma para ele e os dois irmãos e, por isso, ele sempre se enxugava com a toalha molhada. Uma menina escreveu pedindo um colchão porque estava cansada de dormir chão. Já recebemos pedidos de pedaço de queijo, de pizza e muitas vezes eles pedem chocolate”, conta o coordenador.   Hoje agente dos Correios, Laura Soares, 60, se aproximou da instituição por meio da campanha. “Há 13 anos, eu vi um anúncio pela TV e resolvi não só adotar algumas cartinhas como me voluntariar para ajudar a lê-las (até 2012, eram convocados voluntários). Alguns anos depois, acabei prestando um concurso e passei. Acho que uma coisa levou à outra”, diz. “E ainda pude continuar trabalhando na campanha”. Este ano, além de adotar seis cartinhas, Laura doou uma bicicleta que foi sorteada entre as crianças que foram ver a chegada de Papai Noel na agência central.   A empresária Cibele Novais apadrinhou crianças nos últimos quatro anos como uma forma de retribuir o que tem recebido durante a vida. “Sentia que eles pediam muito mais materiais de primeira necessidade, como itens de higiene e material escolar, do que brinquedos, mas eu tomava o cuidado de mandar os dois, para alegrá-los. E percebia também muito zelo deles ao pedir, talvez por medo de não serem atendidos”, conta.   365 dias   Um cuidado importante que às vezes não é lembrado pelas pessoas é o de entender que muitas dessas crianças que são ajudadas no Natal – e adultos também – precisam de ajuda nas outras épocas do ano.   A diretora social e de eventos da ONG O Proação, Márcia Prudente, 46, acredita que é preciso ser solidário nos 12 meses do ano. “Muita gente nos procura nesse período natalino e é ótimo, mas as pessoas precisam se dar conta mais vezes ao ano de que tem muita gente precisando”, afirma. “Não falo nem só d’O Proação, nem de ajuda financeira, às vezes simplesmente um pouco de carinho e atenção, passar uma tarde com uma criança ou idoso, de tempos em tempos, já faz muita diferença”, diz Márcia.   O Proação promove aulas de dança para 130 crianças da comunidade Nova Vista, na região Leste de Belo Horizonte, e acolhe outras 27 retiradas de seus lares por determinação judicial, até que se restabeleçam ou sejam adotadas.   No fim do ano, são arrecadados panetones, caixas de bombom e biscoitos para fazer kits e presentear todas as crianças e as bailarinas do projeto se apresentam num festival. Mas a ação se desdobra durante o ano através de campanhas da arrecadação de produtos para manutenção das casas. Além disso, é possível contribuir financeiramente como sócio fraterno.   O projeto, segundo Márcia, foi uma forma que sua mãe, a juíza aposentada Angela Proença, agradecer tudo o que recebeu de bom ao longo da vida.   “Minha mãe sempre gostou de ajudar as pessoas, mesmo que simplesmente com palavras de apoio. Cresci sob essa influência, e tudo o que faço pelo outro recebo em dobro”, afirma. “Nós já enfrentamos vários desafios para manter a ONG, pensamos em fechar mais de uma vez, mas sempre acabamos vencendo as dificuldades e não tem retorno melhor do que a carinha alegre das crianças. Me sinto feliz de ver o outro bem”.   AINDA DÁ TEMPO DE AJUDAR   Força do Bem  Doação de brinquedos (novos). - Loja Jabuti Kids, praça Rotary, 25, loja 3, Sion; - Academia Alta Energia, r. Michel Jeha, 100, São Bento;  - Clínica Moove, av. Luiz Paulo Franco, 1065, loja 75, Belvedere; - Salão da Bia, r. Rodrigues Caldas, 726, Santo Agostinho.   Paulão Papai Noel Doação de brinquedos para o Natal. Até o dia 11/12.  - DER-MG, av. dos Andradas, 1.120, centro.   Roupas, alimentos não-perecíveis e outras doações. Qualquer data do ano. - r. Medeiros, 397, Minaslândia.   Natal Solidário Irmão da Rua Doação de roupas masculinas, femininas e infantis, calçados e afins para instituições que assistem às pessoas em situação de rua de BH. Até o dia 13/12. - Paróquia Santa Rita de Cássia, r. São Domingos do Prata, 270, São Pedro; - Secretaria da Cultura, Prédio Gerais, 14° andar, Cidade Administrativa; - UM Investimentos Corretora, av. Francisco Sales, 1.614, Santa Efigênia; r. Francisco de Paula Castro, 10, Cidade Nova; av. Afonso Pena, 3.111, Funcionários; - Empório da Carne Sion - r. Patagônia 646, Sion; - Espaço Even - r Vereador Antônio Zandona, 245, Jardinópolis.  

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