Galpão Musical

“De Tempo Somos” - Em novo espetáculo, grupo resgata músicas de suas peças desde os anos 1980

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

Repertório: Atores cantam composições de Chiquinha Gonzaga, Lamartine Babo, além de canções tradicionais russas e italianas.
GUTO MUNIZ/DIVULGAÇAO
Repertório: Atores cantam composições de Chiquinha Gonzaga, Lamartine Babo, além de canções tradicionais russas e italianas.

Era noite de lua cheia no Vale do Jequitinhonha. Às margens do rio homônimo que banha a região, o Grupo Galpão comemorava o aniversário do produtor que havia levado para o Norte de Minas a turnê de “Os Gigantes da Montanha”. A festa foi embalada pelo canto a capela de “Lua Branca”, “Nas Ondas do Danúbio” e outras canções que integraram o espetáculo “Romeu e Julieta” (1992). A cantoria dos atores do grupo deve ter sido bem alta porque despertou o desejo adormecido há mais de uma década de montar um espetáculo em que a música fosse a vedete. Foi assim que, finalmente, a vontade surgida à época da montagem da comédia musical “Um Trem Chamado Desejo” (2000) foi reavivada em workshops ao longo deste ano que, por sua vez, deram origem ao novo espetáculo do grupo. Com estreia na próxima sexta (12) no Galpão Cine Horto, “De Tempo Somos” celebra o encontro do teatro feito pelo grupo com a música através do resgate de 25 canções presentes nos espetáculos do Galpão desde “Corra Enquanto É Tempo” (1988), quando números musicais passaram a fazer parte, sem exceção, de todas as montagens que se seguiriam. A direção é de Simone Ordones e Lydia dell Picchia. “A música é uma chave de comunicação muito forte com a plateia. Ela abre o canal da sensibilidade, da empatia. Além disso, pra nós, a música sempre foi elemento de construção da dramaturgia. Ela não é usada como trilha simplesmente ou como ambientação para uma cena. Ela ajuda a solucionar uma cena, caracterizar um personagem”, reflete Lydia sobre esta “personagem” da trajetória do Galpão que tornou-se agora protagonista de um espetáculo. A seleção de repertório foi afetiva e intuitiva, mas sem apego. Apesar de o processo de escolha das músicas ter obrigado o grupo a fazer uma viagem ao passado, a intenção não era fazer um espetáculo memorialista. Por isso, em “De Tempo Somos” as canções são revisitadas em novos arranjos de Luiz Rocha. “Não queríamos voltar para o mesmo lugar porque não somos mais os mesmos. A gente procurou um olhar novo e de frescor sobre essas músicas”, explica Lydia. Mesmo assim, o grupo não fugiu da questão temporal. Textos de Eduardo Galeano, Charles Baudelaire, Olga Knipper, Jack Kerouac, Nelson Rodrigues, Antón Tchekhov, José Saramago, Paulo Leminski e Calderón de La Barca são intercalados às músicas para falar do tempo de maneira mais subjetiva, sem compromisso com cronologia ou passado, presente ou futuro – as músicas também não são apresentadas em ordem cronológica. “Essas músicas acabam expondo a trajetória do grupo e esse trabalho mostra bem o nosso desejo de falar da nossa história e dividir isso com o público”, afirma Simone. Distopia pode ser novo tema A distopia, pensamento filosófico que constrói uma sociedade imaginária regida por padrões autoritários ou totalitaristas, como os modelos retratados em livros como “1984” e “Admirável Mundo Novo”, pode ser o tema do novo espetáculo do Grupo Galpão, previsto para estrear no segundo semestre de 2015. “Quando a gente está se preparando para uma nova montagem, às vezes o desejo é de trabalhar uma questão técnica, às vezes é o desejo de ter um diretor, às vezes é de um tema. Por agora, a gente está um pouco fascinado e interessado nesse tema da distopia, mas não sei se vamos adotá-lo de fato”, pondera a atriz Simone Ordones. O Galpão voltou os olhos para o tema após uma série de palestras feitas por professores universitários para o grupo. “É uma tema que já tem uma história na literatura e no cinema, e lendo jornal, olhando na internet, a gente vê que é um assunto latente”, diz Simone. De Tempo Somos – Grupo Galpão Galpão Cine Horto – Teatro Wanda Fernandes (r. Pitangui, 3.416, Horto, 3481- 5580). De 12 (sexta) a 21 de dezembro. Sextas, às 21h; sábados, às 19h e 21h; e domingos, às 20h. R$ 40 (inteira)

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