Internação por ordem judicial cresce 327% em Minas Gerais

Justiça autorizou 116 tratamentos contra crack em 2012; no ano seguinte, dado saltou para 495

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

ALEX DE JESUS/O TEMPO
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“Dizem que, quando a gente é internado, a polícia ficha a gente. É verdade?”, pergunta a cabeleireira M.L.C., 34, à reportagem. A resposta é “não”, mas mesmo assim ela parece desconfiada. O medo de buscar atendimento em um hospital ou numa clínica para desintoxicação e tratamento contra a dependência química rodeia o pensamento de muitos usuários de crack e de outras drogas. Isso só faz com que os dependentes se tornem ainda mais resistentes ao tratamento.  

E esse é um dos motivos de as internações compulsórias (por determinação da Justiça, com ou sem o consentimento do paciente) terem sido a alternativa em muitos casos. Os números não deixam dúvidas: de 2012 para 2013, a modalidade teve um salto de 327% em Minas.

No último dia da série “Reféns do crack”, O TEMPO mostra o que está por trás desse tipo de medida e os impactos dela. Em 2012, a Justiça autorizou a internação de 116 dependentes químicos. No ano seguinte, o número mais que triplicou, com 495 registros. Já de janeiro a setembro deste ano, foram 246 casos, dado que já supera o de 2012, mas com uma média mensal menor que a do ano passado (27 contra 41, respectivamente).

Indicação. A internação compulsória costuma ser indicada quando o paciente apresenta complicações decorrentes do uso da droga, como hipertensão grave, ataque cardíaco, risco de overdose e hemorragia. Outro critério é quando há risco de morte para o usuário de drogas ou seus familiares.

As famílias recorrem ao Judiciário quando o dependente químico não quer se tratar ou quando não encontra vaga na rede de saúde, o que é muito comum. Juízes dizem que adotam a alternativa para evitar crimes, já que alguns usuários se envolvem em delitos para sustentar a dependência.

É o caso de D.S., 28, que usa crack desde os 17 anos e diz que já vendeu drogas e roubou para fumar. “Já fui preso e hoje continuo aqui, fumando e roubando. Não quero ir para um hospital para me doparem de remédio. Quando eu quiser parar, eu paro sozinho”, afirma o rapaz, enquanto acende seu cachimbo na Pedreira Prado Lopes, na região Noroeste da capital.

Mas, na prática, especialistas sabem que não é bem assim. “Se eles não largam é porque a dependência é o adoecimento da vontade, da capacidade de fazer uma escolha”, afirma o subsecretário de Políticas sobre Drogas de Minas Gerais, Cloves Benevides.

O problema é que, quando a internação é feita contra a vontade do usuário, segundo alguns estudiosos, o tratamento não tem o efeito esperado pelo fato de a pessoa não estar envolvida no processo de recuperação e também por ficar afastada de seu meio social e familiar. “Internar compulsoriamente, às vezes, não traz resultado. O remédio estaciona o caso, e, depois de dois dias de volta ao seu ambiente, o paciente está de novo usando o crack”, diz Benevides.

A primeira usuária de drogas a ser internada compulsoriamente em Minas foi Carolina Moreira Alves Pereira, 27, em 2011. “Por vontade própria, ela nunca quer se tratar. Só mesmo por força da Justiça”, diz a mãe, Sônia Cristina Moreira, 45. No entanto, apesar da medida judicial, de 2011 para cá, Carolina já precisou ser internada mais duas vezes compulsoriamente, e, hoje, ela continua usando crack.

As internações

Voluntária (com o aval do paciente). Os casos da ONG Instituto Ajudar, contratada pelo Estado, caíram de 73 em 2012 para 42 em 2013 e para 19 no período de janeiro a setembro deste ano.

Involuntária (contra a vontade do paciente, mas com recomendação médica). A ONG teve 228 internações desse tipo em 2012, 321 em 2013 e 90 de janeiro a setembro de 2014.

Compulsória (por ordem da Justiça). De 2012 até setembro último, foram 857.

Em Minas Análise.Em 2012, foi criado o Comitê de Cooperação de Acompanhamento das Medidas Compulsórias e Involuntárias, com vários órgãos. Hoje, 921 famílias têm assistência.

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