Uma obra-prima que sobreviveu à morte

Mutilado pelo estúdio no lançamento, longa foi reconhecido como obra-prima do diretor ao ser relançado em DVD

iG Minas Gerais | daniel oliveira |


Sépia e melancólica, fotografia do longa é copiada ate hoje por obras do gênero
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Sépia e melancólica, fotografia do longa é copiada ate hoje por obras do gênero

É possível ler “Era Uma Vez na América”, que a mostra Sergio Leone exibe neste domingo às 18h15 no Cine Humberto Mauro, de duas maneiras. A primeira é um retrato da decadência moral que se esconde por trás do “american dream” prometido aos imigrantes que chegam aos EUA – um lado B representado na fotografia sépia que lava o dourado típico desse tipo de produção.

A segunda é como uma metáfora do próprio cinema, com o flashback do delírio drogado do protagonista Noodles (Robert De Niro) servindo como uma projeção da relação do diretor Sergio Leone com a sétima arte neste que, poeticamente, seria o último filme de sua carreira. Um sonho que começa cheio de paixão e com uma inocência infantil e termina com traições e desilusões políticas e corporativas.

Esse desfecho melancólico, no caso do filme, se deu com a mutilação da versão original, de cerca de quatro horas, lançada no festival de Cannes em 1984. O estúdio não só diminuiu como remontou o longa, num corte de pouco mais de duas horas que descaracterizou toda sua estrutura, trocando os flashbacks por uma cronologia linear – com um resultado massacrado pelos críticos no lançamento nos EUA.

Mas “Era Uma Vez na América” é daquelas obras-primas capazes de sobreviver ao tempo e a qualquer mutilação. A história do gângster Noodles – que retorna ao Lower East Side de Nova York após anos na prisão e confronta fantasmas do passado como o amigo Max Bercovicz (James Woods) e o triângulo amoroso dos dois com a aspirante a atriz Deborah Gelly (Jennifer Connelly, fazendo sua estreia no cinema, quando criança, e Elizabeth McGovern, de “Downton Abbey”, adulta) – foi relançada em DVD com o corte de Leone e aclamada como um dos maiores filmes de todos os tempos.

Qualquer filme que traga a melhor trilha da carreira de Ennio Morricone, traduzindo a tragédia da vida de Noodles em acordes melancólicos de partir o coração, já seria imperdível. Com a fotografia de Tonino Delli Colli e as muitas camadas da encenação impecável de Leone, “Era Uma Vez na América” é um favor aos olhos – e à alma.

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