Eu dezembro, tu dezembras, ele dezembra

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Havemos de dezembrar. O mês transformado em verbo aparece no livro de Valter Hugo Mãe, como o conselho do pai para que todos chegassem vivos e salvos ao fim do ano, a resistir. Também é hashtag para as fotos do Instagram que já exibem os rituais inaugurados esta semana e que são cumpridos com determinação por tanta gente. Acontece que é bem difícil chegar a essa região do calendário como se nada estivesse acontecendo. Mesmo que não conjuguemos o verbo, todos nós dezembramos, seja porque o amigo oculto da firma não nos dá alternativa, seja porque é a única maneira de entrar em janeiro aberto para todas as possibilidades que chegam junto com ele. O que muda – e muitas vezes pra mesma pessoa – é o significado que imprimimos no tal verbete. Tem quem assuma a função de contador, revendo as promessas de lá do começo, verificando cada compromisso assumido, dando baixa no livro de entradas e saídas. Talvez fique feliz em constatar um superávit primário, que faz com que o novo ano já comece mais leve. Talvez precise negociar com a própria consciência uma flexibilização da meta, para que as dívidas não fiquem maiores do que ele pode carregar. Outro tanto supervaloriza a diversão. Dezembro tem que incluir muita bebedeira, uma agenda cheia de festas, todos os encontros que não aconteceram no resto do ano. Dezembro tem que ser grande, barulhento e louco. Ah, e precisa ser público. Porque não vale nada se acabar no recreio se o resto do mundo não ficar sabendo. É o mês-espetáculo! Por falta de forças, por não encontrar mais ânimo ou por apatia mesmo, tem quem abandone o ano assim que dezembro aponta. Começa a bater cartão burocraticamente, para de frequentar a aula de inglês, esquece o endereço da academia, faz jogral no Facebook pedindo para que o mês 12 seja ligeiro. Acredita com todo seu coraçãozinho que algo mágico acontece na virada, apagando as tragédias cotidianas que colecionou nos outros 334 dias. Ainda tem uma turma que é abatida por uma devastadora preguiça desse clima de “We are de champions, my friend”. Acha tudo brega, acha tudo meio deprê, acha tudo forçado. Não vê a hora de as pessoas voltarem para a mesquinharia rotineira e mais honesta e, secretamente, planeja um vandalismo básico no pinheiro cheio de bolas coloridas que colocaram no hall do prédio. Tem quem espere um milagre, tem quem só sinta saudade, tem quem mergulhe em si mesmo, tem quem espere passar. Assim, entramos em janeiro, começados. 

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