Sim, somos gratos

iG Minas Gerais |

O publicitário não estava doente. Não corria risco de vida. Também não se tratava de uma despedida. Não ia morrer. Pelo menos, não esperava. Afinal, tinha trinta e tantos anos e muitos planos pela frente. Simplesmente, naquela manhã, ele acordou com a alma leve. Decidiu agradecer por isso. Lembrou que não havia dito o suficiente às pessoas que estavam ao seu redor. Sentia-se imensamente feliz pela convivência. Pelos erros e pelos acertos. Já era quase fim do ano, precisava realmente demonstrar sua gratidão. Não bastavam só gestos de ternura. Queria se declarar para a mulher que o acompanhava havia mais de dez anos. Foi até ela e a beijou. Depois, olhou em seus olhos com ternura e disse que a amava. Agradeceu por cada dia que passaram juntos, pela forma como ela cuidava dele e por superar com tanta grandeza as fases difíceis. Só então saiu para o trabalho. Teve um dia melhor. Do outro lado da cidade, a vendedora se despedia da mãe. A senhora morreu com complicações decorrentes da idade. Foram 90 anos. Na última oração, antes de enterrá-la, a filha chorou. Sim, havia dor, mas, ainda assim, sentia-se extremamente abençoada, grata por suas raízes, pela convivência e pelos valores repassados. Agradeceu a Deus por terem estado juntas. Rezou bem alto para que todos pudessem ouvir suas palavras, para reforçar o quanto se considerava uma pessoa abençoada pela mãe que teve. Muitos se emocionaram com ela. Já em um prédio comercial da área hospitalar da capital, o zelador passa o dia no meio de um entra e sai. Todos sempre cheios de pressa. De passagem. E ele, disponível. Um quebra-galho sem muito reconhecimento, sem tantos “obrigados” que pudessem tornar o trabalho mais prazeroso. Ainda assim, está feliz por estar empregado aos 60. Ontem ganhou um abraço doce da garota de perna quebrada, a quem ajudou perto do elevador. Depois veio um sorriso. Também ganhou o dia. Ser grata também faz de mim uma pessoa melhor. Penso sobre isso quase todos os dias. Vai além: admiro aqueles capazes de reconhecer quem prestou um benefício, um auxílio, uma gentileza ou mesmo um favor. São muitas as formas de gratidão e também inúmeros os bons efeitos que elas podem causar – tanto para os gratos quanto para os que recebem o reconhecimento. Certa vez, li em algum lugar que as pessoas agradecidas tendem a ser mais felizes. Eu me interessei pelo assunto. O artigo dizia que dezenas de estudos descobriram que a gratidão pode melhorar o bem-estar e até mesmo ajudar as pessoas a reduzir a depressão, a ansiedade, melhorar o colesterol e o sono. O texto também sugeria listar coisas boas que ocorreram ao longo do dia e também os nomes das pessoas que contribuíram para que elas ocorressem. Defendo os pequenos gestos. Ouvir, sorrir, olhar nos olhos ou simplesmente dizer “ muito obrigada” são ações que podem criar um círculo virtuoso de gratidão. E ela se espalha dentro da gente numa energia capaz de nos fazer melhores. Ninguém é tão especial que não precise da ajuda de alguém. Contamos com o outro vida afora. A gratidão é mais que um sentimento, trata-se de uma escolha. Talvez seja, inclusive, uma habilidade a ser desenvolvida. Basta cultivá-la, e ela vai crescer dentro de você. Pode superar velhos ressentimentos e se reinventar até nos dias em que tudo parece insuperável. Como aquele homem no início do texto, também escolhi agradecer. Pela vida, pela saúde, pelos amigos que me acolhem todos os dias, pela família tão cheia de amor, por produzir, por enxergar possibilidades, por corrigir os malfeitos ou ao menos tentar entendê-los, por ir, mas também por voltar quando for preciso. Por estar aqui.

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