Clube tinha regras de ‘futebol’

Empreiteiras faziam “campeonato” para definir quem iria “ganhar” as licitações da Petrobras

iG Minas Gerais |

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Mesmo sendo citado como negociador dos valores da propina, Renato Duque deixou a prisão ontem
CASSIANO ROSÁRIO/FUTURA PRESS/E
Livre. Mesmo sendo citado como negociador dos valores da propina, Renato Duque deixou a prisão ontem

Brasília. Para ratear entre si as obras da Petrobras, o cartel de empreiteiras investigado na operação Lava Jato elaborou um regulamento semelhante às normas de um “campeonato de futebol”. A revelação foi feita pelo executivo Augusto Ribeiro de Mendonça, da Toyo Setal, em depoimento à Polícia Federal.  

Segundo ele, as normas do “clube” de empreiteiras chegaram a ser escritas e eram de conhecimento das empresas participantes. Porém, os registros foram destruídos após a operação Lava Jato ser deflagrada, em março, devido ao risco de ser apreendidos e usados como prova pela PF.

“Em algum momento, alguém escreveu essas regras, como se fossem (de) um campeonato de futebol, para evitar discussões entre as empresas do clube”, afirmou, acrescentando que os autores do regulamento eram, possivelmente, os dois “coordenadores” do cartel: Ricardo Pessoa e Antônio Carlos, da UTC.

O executivo – que aceitou fazer delação premiada, em troca de redução de pena – descreveu as regras. Aos investigadores, disse que as empreiteiras se reuniam regularmente para escolher com qual obra da Petrobras cada uma ficaria.

As empresas davam notas para os projetos, de 1 a 3, conforme suas prioridades. A partir daí, discutiam os preços a serem apresentados nas licitações. As vencedoras eram previamente definidas. As demais participantes das concorrência entravam como figurantes.

O regulamento do cartel previa formas para solucionar conflitos, em caso de disputa acirrada por uma mesma obra. As empreiteiras, segundo Mendonça, eram chamadas de “equipes”, como nos jogos de futebol, e participavam de “rodadas” para definir as executoras dos projetos da estatal.

Sede. Mendonça também afirmou à Polícia Federal que as negociações de pagamento de propina eram feitas também na sede da Petrobras. O executivo contou que conversava por telefone com o ex-diretor de Serviços da estatal Renato Duque e com o ex-gerente de engenharia Pedro Barusco para marcar encontros.

As reuniões eram realizadas, além da sede da estatal, onde trabalhavam Duque e Barusco, em locais públicos, como restaurantes e cafés. Esses encontros eram promovidos para negociações dos valores a serem pagos e também para a realização de um cronograma e um acompanhamento da realização dos pagamentos.

Mendonça contou ainda que o acompanhamento do pagamento das propinas era feito por uma espécie de “conta-corrente”, que listava o fluxo dos pagamentos, nome dos projetos, valor da propina acertada, pagamentos efetuados e o saldo de cada um. Tais controles existiam também em papel, mas o documento foi destruído após ao início da operação, em março deste ano.

Prisão O juiz federal Sergio Moro indeferiu nesta quarta dois pedidos de revogação de prisões preventivas de executivos de empreiteiras investigadas na sétima etapa da operação Lava Jato. O diretor da Galvão Engenharia, Erton Medeiros Fonseca, e o vice-presidente da Engevix, Gerson de Mello Almada devem permanecer presos na Polícia Federal em Curitiba. Para o juiz, a admissão de pagamento e a entrega de comprovantes de propina não foram suficientes para relaxar a prisão dos executivos.

Astromarítima Apesar do cerco aos negócios de empreiteiras e fornecedoras com a Petrobras, a estatal continua contratando empresas citadas na operação Lava Jato. A Astromarítima Navegação S/A assinou no último dia 28, um contrato no valor de R$ 23 milhões para prestação de serviços de manutenção de embarcações. A Polícia Federal identificou planilhas do ex-diretor de abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa sugerindo o pagamento de comissões para intermediação dos contratos entre a Astromarítima e a Petrobras.

Não há acordo sem punição, diz Janot Brasília. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, considera impossível fazer qualquer tipo de acordo de colaboração premiada com empresas sem a punição de executivos. Nessa terça, advogados de empreiteiras se reuniram com o procurador para negociar formas de colaboração com benefícios às empresas e aos acusados pela operação Lava Jato. “A partir do momento que uma pessoa não quer reconhecer culpa em uma delação premiada, não há possibilidade de acordo”, disse Janot.

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