Um olhar “antifotogênico”

Cineasta lança “Contrastes Simultâneos”, livro com registros ao longo de quatro décadas, além do longa “Brincante”

iG Minas Gerais |

Abandono. Imagem de um drive-in em Cabo Frio (RJ) revela o silêncio registrado na obra de Carvalho
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Abandono. Imagem de um drive-in em Cabo Frio (RJ) revela o silêncio registrado na obra de Carvalho

São Paulo. Para o cineasta Walter Carvalho, tanto seus filmes quanto suas fotos compartilham a mesma missão: “Encher os olhos de sonhos”, diz o diretor de fotografia mais conhecido do país.

É dessa matéria, um universo com um quê de onírico, que se compõe o colorido “Brincante”, filme dirigido por ele que estreia hoje (veja sobre as estreias do dia na página 5). São também para encher os olhos as fotos que compõem o recém-lançado “Contrastes Simultâneos” (editora Cosac Naify, 208 páginas, R$ 129), livro que reúne registros feitos por Carvalho nos últimos 40 anos.

Em “Brincante”, filme que cambaleia entre a ficção e o documentário, quem enche a tela é Antonio Nóbrega, ator, dançarino e músico que recusa o rótulo de “multiartista”.

Carvalho, 67, capta as coreografias e os personagens criados pelo recifense Nóbrega, 62, pesquisador da cultura popular. Estão lá seus tipos sertanejos e números musicais filmados em avenidas e topos de prédios em São Paulo.

Entrevistas e dados biográficos sobre Nóbrega, no entanto, são dispensados. “Dá para perceber quem ele é, como ele vive, todas as suas nuances, sem precisar desse apoio”, diz Carvalho. “A ideia é que o espectador embarque no lirismo das imagens”.

“Brincante” é o sétimo filme dirigido por Walter Carvalho, que firmou a carreira na direção de fotografia de dezenas de longas nacionais, incluindo “Central do Brasil” (1998), “Lavoura Arcaica” (2001) e “Carandiru” (2003).

Sem fotogenia. “Sou um fotógrafo que dirige”, define-se Carvalho, que diz se opor à “tentação da fotogenia”. “Me recuso a retratar um pôr do sol, a não ser que ele esteja dilacerado ou num momento de epifania”.

“Contrastes Simultâneos” reúne 126 dessas fotografias antifotogênicas, extraídas de ensaios temáticos (matadouros, Carnaval, violência, etc.), mas misturadas entre si.

“As fotos se conectam por oposição ou afinidade”, diz o paraibano Carvalho. “Dá para ler o livro da forma que quiser”, completa.

Próximo a uma imagem que traz freiras com os corpos cobertos por seus hábitos numa praia paulista, um morador de rua carioca esconde o rosto na camiseta. Um goleiro abre os braços e, na página seguinte, voa uma pomba.

Há, sobretudo, um silêncio: estradas desertas, crianças solitárias no sertão, delegacias abandonadas. “Gosto de trabalhar com os vestígios. É preciso criar mistérios para entrar na imaginação”.

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