Cadeiras vazias, bombas em excesso e outros despropósitos

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Na semana passada, o foguetório era tanto que pensei: um estrangeiro que chegasse a Belo Horizonte em meio a essa baderna não entenderia nada. Era demais para o seu raciocínio. Principalmente quando, em meio a estouros, gritos e bombas, descobrisse que a festa vinha de cruzeirenses, comemorando o Campeonato Brasileiro, e de atleticanos, três dias depois, comemorando a Copa do Brasil. Cada torcida querendo se superar, mostrar mais força e barulho que a outra. Afinal, a disputa se faz também fora dos gramados, num campeonato de bombardeios. E fico pensando em quem não tem nada a ver com isso, detesta futebol e é obrigado a ouvir tantos estouros madrugada adentro. Sim, porque o foguetório tornou-se ritual comum, tanto da parte dos que ganham como da parte dos que torcem contra, ou seja, quando o “inimigo” perde. Quer dizer, de um jeito ou de outro não escapulimos disso. Os idosos, as crianças, os acamados, todos nós, e até os cachorros, cada vez mais desorientados. Um amigo me conta indignado sobre a maluca que mora em seu bairro. Às quatro da manhã, pontualmente, a mulher vai pra praça e começa a gritar: “Galôoo!” Isso, há mais de uma semana. Já chamaram a polícia para conter seus ânimos, mas, ao constatarem que se trata de uma maluca “inofensiva’, nada podem fazer. Entendi tardiamente que muitos dos jogadores de futebol não merecem nosso sofrimento ou manifestações de fanatismo. Vejo gente se digladiando por jogadores que, absolutamente, não estão nem aí: farristas que ganham rios de dinheiro, se autovangloriam e não têm o menor amor à camisa que vestem, apenas aos salários estratosféricos que a profissão e a fama lhes proporcionam. Dinheiro que eles, se não tiverem orientação e equilíbrio, perdem da noite pro dia. Desconheço os critérios usados para definir os preços dos ingressos, mas, sejam lá quais forem, a meu ver, são equivocados. Ingressos que vão de R$ 200 a R$ 1.000 por pessoa são demasiadamente salgados para o bolso do torcedor mineiro. Já falei sobre isso e volto a bater nessa tecla. Fiquei decepcionada ao ver a decisão de quarta-feira no Mineirão repleta de cadeiras vazias. Acho uma crueldade negar à maioria da torcida, seja atleticana ou cruzeirense, a possibilidade de assistir aos jogos. Falo do operário da obra, do zelador do prédio, do gari, da menina da locadora, do caixa do sacolão... Falo do torcedor mais humilde, assalariado, que, por mais que queira, não consegue arcar com tamanho dispêndio, ou então, movido pela paixão, acaba comprometendo seu orçamento, endividando-se, apenas para estar lá e ver seu time no gramado. Desde os 14 anos frequento o Mineirão. Tenho saudades do tempo em que arquibancadas eram arquibancadas mesmo. Não tão confortáveis feito as atuais cadeiras, mas que nos permitiam mais mobilidade e até marcar encontros. “Vou estar atrás do gol do América!”, dizia aos meus amigos. Quando chegavam, bastava uma “arredadinha” e pronto. Nenhum problema, assistíamos todos juntos à partida. Hoje, isso é impossível. As cadeiras são numeradas, o amigo que foi sozinho não consegue mais sentar-se ao seu lado. Isso para não dizer que a capacidade de público pagante reduziu-se à metade. O Mineirão, de 110 mil torcedores, hoje comporta 60 mil. E me pergunto: o torcedor prefere ter acesso ao jogo sentado numa arquibancada de cimento, a preço acessível, ou ter que disputar um lugar caro nas 60 mil cadeiras disponíveis? Torcedores não ligam pro conforto, o importante é estar lá, seja na arquibancada, na geral ou na cadeira numerada, que, por sinal, não serve pra nada, já que todo mundo assiste em pé mesmo. Vejo que as coisas mudaram. Hoje, com a capacidade reduzida à metade, os problemas do estádio e seu entorno parecem ter dobrado. Opinarei sobre uma questão polêmica, que acredito ser parte da solução. Já que a torcida agora é única, o que de certa forma é sensato devido aos índices de violência, sugeriria liberarem a cerveja, como era antigamente. Até porque, quem quer beber, bebe do mesmo jeito, só que do lado de fora, causando confusões tremendas, como invasão de jardins com churrasqueiras improvisadas, urina no meio da rua, nos muros e nos gramados alheios; lixo por todo lado, moradores ameaçados e invadidos nos seus direitos. Tanto é verdade que, antes de os jogos começarem, os estádios encontram-se relativamente vazios e, cinco minutos antes do início da partida, se enchem de repente. Mas onde estava esse povo?, me pergunto. Lá fora, bebendo, deduzo. Ou seja, é melhor trazer a cerveja de volta aos bares do estádio, evitando tumultos, correrias de última hora e excesso de bebida, já que, não podendo beber lá dentro, exageram na dose lá fora. Digo isso como observadora, não tomo cerveja nem outras bebidas alcoólicas. No Mineirão ou no Independência, me basta uma Coca ou um picolé. Outra observação óbvia: devido aos preços salgados dos ingressos, a cada ano, aumenta a elitização das torcidas. E aquele torcedor mais simples, folclórico, que tem no time talvez a sua única grande paixão, aquele que grita mais alto, que sabe o hino de trás pra frente, que conhece a escalação de cor, que veste a camisa já surrada, que vibra mais, infelizmente, e contra a sua vontade, vem se distanciando dos gramados. Sei que jogadores são caros. Para se ter uma “estrela”, além dos patrocínios, muitos ingressos devem ser vendidos e com valores elevados, pois manter jogadores de alto nível é muito complicado. Concordo que ingressos caros dão uma boa ajuda ao orçamento do time, mas fico pensando: será que isso vale a pena numa final de campeonato em que é preciso vencer e somente vencer? Não seria o caso de encher os estádios com o que eles, os times, têm de mais valioso? Sua autêntica torcida, composta por torcedores fiéis e apaixonados, cujos gritos, com certeza, se fariam mais altos que os daqueles que, porventura, tiveram sorte e condições de pagar R$ 600 por um ingresso? Afinal, decisões exigem uma tropa de choque, gente que incentive ininterruptamente nos 90 minutos, que não pare pra descansar, que empurre o time com vontade. Necessita de ingressos acessíveis àqueles que estão dispostos a levar a vitória ao campo, nem que seja pelo grito.

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