Propina virou doação eleitoral

Executivo da Toyo Setal, Augusto Mendonça diz que pagou R$ 4 milhões ao PT entre 2008 e 2011

iG Minas Gerais |

CPI. Ildo Sauer criticou a presidente Dilma Rousseff por ter falado que o parecer de Pasadena era falho
Gabriela Korossy / Camara dos De
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Brasília e Curitiba. O executivo Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, da Toyo Setal, afirmou em acordo de delação premiada na operação Lava Jato que parte da propina paga para o ex-diretor de Engenharia e Serviços da Petrobras Renato Duque eram “doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores”. Outras formas foram “parcelas em dinheiro” e “remessas em contas indicadas no exterior”. No entanto, outro diretor da mesma empresa, Júlio Camargo, afirmou em depoimento que as doações que fez legalmente a 11 partidos políticos não fazem parte do esquema de propina.

Mendonça estimou em “aproximadamente R$ 4 milhões” o total pago em doações ao PT entre os anos de 2008 e 2011 por orientação pessoal de Duque. O executivo afirmou que as empresas responsáveis pelas doações foram a Setec Tecnologia, a PEM Engenharia e a SOG Óleo e Gás.

A prestação de contas enviada pelo Diretório Nacional do PT à Justiça Eleitoral em 2010 tem um valor total de R$ 2,1 milhões em nome das três empresas. A PEM doou R$ 500 mil, a Setec, o mesmo valor, e a SOG, R$ 1,04 milhão entre abril e junho de 2010, às vésperas da campanha eleitoral. Outra parcela de R$ 60 mil foi paga pela SOG em 12 de julho, já durante a campanha.

Segundo Mendonça, foi o ex-diretor da Petrobras Renato Duque quem determinou que fosse feita doação para o PT. Ele detalhou ainda como foi feita a distribuição da quantia. Disse que parte foi entregue também em dinheiro vivo a um emissário de Duque conhecido apenas como Tigrão.

Em nota, a secretaria de finanças do PT diz que só recebe doações de acordo com a legislação eleitoral vigente: “No caso específico, o próprio depoente reconhece em seu depoimento que foi orientado pela secretaria de Finanças do PT a efetuar as doações na conta bancária do partido”. A legenda afirma que os recibos foram declarados na prestação de contas apresentada ao TSE e que o processo ocorreu dentro da legalidade.

Contradição. Já Júlio Camargo admitiu em depoimento à Polícia Federal ter pagado R$ 137 milhões em propinas, dos quais US$ 40 milhões à época (R$ 102 milhões no câmbio de hoje) para o lobista Fernando Soares e R$ 35 milhões para Renato Duque e Pedro Barusco, ex-gerente da estatal.

Camargo mencionou contas na Suíça, no Uruguai, em Hong Kong e na China que teriam sido usadas no esquema. O executivo também afirmou que Soares, conhecido como Fernando Baiano e citado como operador do PMDB no esquema – o partido nega –, era próximo do ex-diretor da Área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró.

Camargo negou, entretanto, que tenha feito doações eleitorais como pagamento de propina. A fala é oposta à de Augusto de Mendonça Neto, também delator da Toyo Setal, segundo a qual empresas fizeram doações legais ao PT como contrapartida para obter e manter contratos com a Petrobras. O delator e suas empresas de consultoria – Auguri, Piemonte e Treviso –, que, segundo ele, fechavam contratos com construtoras para intermediar o pagamento de propina na Petrobras, doaram R$ 4,2 milhões nas eleições de 2008, 2010 e 2012 a políticos de 11 partidos.

Pagamentos

Soma. Nas delações premiadas, os dois diretores da Toyo Setal admitiram participação no pagamento de pelo menos R$ 152 milhões de propinas vinculadas a contratos com a Petrobras.

CGU instaura processos contra empresas Brasília. Oito empresas envolvidas na operação Lava Jato serão investigadas em processo administrativo instaurado pela Controladoria Geral da União (CGU). As empresas Camargo Corrêa, Engevix, Galvão Engenharia, Iesa, Mendes Júnior, OAS, Queiroz Galvão e UTC-Constran serão notificadas nos próximos dias. A CGU instaurou os processos após análise de informações da investigação, que foram compartilhadas pela Justiça Federal. As apurações da controladoria ainda continuam, e há a possibilidade de novos processos contra outras empresas.

Condenação O Ministério Público Federal pede a condenação de nove suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção que atuava dentro da Petrobras. Entre os acusados estão Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef; o sócio da importadora Sanko-Sider Márcio Andrade Bonilho; o dono da MO Consultoria, Waldomiro Oliveira; o contador das empresas RCI Software e Empreiteira Rigidez, Antônio Almeida Silva; os sócios da Labogen Leonardo Meirelles, Leandro Meirelles e Esdra de Arantes Ferreira; e o sócio da Piroquímica Pedro Argese Júnior.

Moody’s Risco. As investigações envolvendo denúncias de corrupção na Petrobras levaram a agência de classificação de risco Mood’s a baixar a classificação de crédito, medida pelo critério Baseline Credit Assessment (BCA), da empresa brasileira. Justificativa. A agência explicou que a nota reduzida representa o risco de crédito de uma empresa, independentemente do apoio da entidade à qual está vinculada – no caso da petroleira, o próprio governo brasileiro. A classificação da petroleira caiu de Baa3 para Ba1.

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