Venda e uso de crack vão ser vigiados por câmeras em BH

Projeto de videomonitoramento começa neste mês; outras quatro cidades serão contempladas

iG Minas Gerais | Luciene Câmara |

Localização. Em Belo Horizonte serão 80 câmeras, espalhadas nas quatro maiores “cracolândias”
ALEX DE JESUS/O TEMPO
Localização. Em Belo Horizonte serão 80 câmeras, espalhadas nas quatro maiores “cracolândias”

Espaços públicos geralmente mal-iluminados, com ruas e praças sujas e sem conservação, abandonadas. Quem vive ali, usando crack e outras drogas, também parece esquecido por programas de saúde ou de reinserção social. Não se sabe sequer quem e quantos são, mas, a partir deste mês, eles passam a ser monitorados por câmeras e agentes de segurança.

No terceiro dia da série “Reféns do Crack”, a reportagem de mostra como é o projeto de videomonitoramento do governo federal, em fase de implantação em Belo Horizonte e outras quatro cidades mineiras. A capital será a primeira a receber o serviço, com previsão de início ainda neste mês, segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Serão 80 câmeras, distribuídas nas quatro grandes “cracolândias” da cidade (veja mais ao lado). O TEMPO

A polêmica é que o monitoramento será feito por policiais civis e militares, guardas e bombeiros, e não equipes de saúde e assistência social. Esses profissionais terão sprays de pimenta e armas de choque.

O subsecretário de Políticas sobre Drogas de Minas, Cloves Benevides, explica que haverá substituição de armas letais por não letais e que o trabalho não substitui o que já é feito por psiquiatras, clínicos e assistentes sociais. “As abordagens por equipes de saúde e assistência social vão continuar. Agora, se tem uma briga de usuários, é ação de polícia. Se tem um usuário depredando patrimônio público, é da guarda civil”.

Funcionamento. Seiscentos policiais foram treinados em todo o Estado. As câmeras serão instaladas em um raio de 3 km² nas cenas de uso. Micro-ônibus vão captar as imagens, que serão analisadas pelos agentes. Em cada área, haverá equipes em dois carros e duas motocicletas prontas para serem acionadas pela base (micro-ônibus).

“A estratégia é aumentar a sensação de segurança do espaço e melhorar os resultados das abordagens já existentes. É uma lógica de centro de comando e controle, como funcionou na Copa do Mundo. As equipes de consultórios de rua, que já estão na área, passarão a ter informações mais qualificadas. A polícia também vai ganhar esse incremento”, ressalta Cloves.

Para o especialista em segurança pública Luís Felipe Zilli, câmeras servem para aumentar o poder de vigilância em relação a eventos criminais, e não a problemas de saúde pública, como o crack. “A abordagem armada, letal ou não letal, não faz sentido. Ou se está ali para lidar com quem precisa de abordagem da saúde pública ou se está ali para uma abordagem policial, ordens de prisão”, ressalta Zilli.

O coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Frederico Garcia, diz que a eficácia do trabalho vai depender da maneira como ele for conduzido. “Se for só para coibir o consumo, o usuário vai se deslocar para outro local, o que não resolve o problema. Mas se esse trabalho for associado a uma rede de abordagem eficaz, pode haver um resultado muito bom. Isso vai depender da conversa da defesa com a saúde, da saúde com a assistência, e assim vai. O que a gente vê hoje é falta de diálogo entre essas três áreas”.

‘Polícia deve focar o grande traficante’  Especialistas em segurança pública reforçam a importância de as polícias se concentrarem em investigação e repressão ao tráfico internacional e não no pequeno varejo nas “cracolândias”, muitas vezes realizado pelos próprios usuários de droga como forma de sustentar o vício. “A polícia tem que agir na retaguarda para cortar as fontes de abastecimento. E esse grande traficante não está nas cracolândias”, disse o cientista político e ex-subsecretário Nacional de Segurança Pública Guaracy Mingardi.

Ele acredita que o videomonitoramento terá pouco efeito. “A polícia não vai prender ali nem o médio traficante, quanto mais o grande. Em termos de ação policial, não diminui o tráfico. A presença da polícia pode corrigir pequenas infrações e reprimir um pouco o varejo da droga, o que não é ruim”, avalia. No entanto, Mingardi pondera que a iniciativa precisa servir de instrumento para a atuação de duas áreas fundamentais: a saúde e a assistência social. (LC)

Saiba mais

Reforço. O Ministério da Justiça informou que as ações de combate ao tráfico foram intensificadas em 2013. Por isso o país teve recorde de apreensões: 105,5 t de cocaína/crack no ano passado.

Vídeo. Outras oito cidades, com mais de 200 mil habitantes, receberão o monitoramento. A previsão é para o primeiro semestre de 2015. São elas: Governador Valadares, no Rio Doce, Ipatinga, no Vale do Aço, Divinópolis, no Centro-Oeste, Sete Lagoas, Central, Uberlândia, no Triângulo, Ribeirão das Neves e Santa Luzia, na região metropolitana, e Montes Claros, no Norte

Instalação

Preparativos. Os micro-ônibus que serão usados na capital já estão disponíveis no 5° Batalhão da Polícia Militar. As câmeras também já começaram a ser instaladas, segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social.

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