Criar para processar e sobreviver

Presa e torturada pela ditadura militar, Lúcia Murat é a homenageada da Mostra de Cinema e Direitos Humanos

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Sobrevivente. Liderança no movimento estudantil da época, Murat foi presa em 1971
SDH
Sobrevivente. Liderança no movimento estudantil da época, Murat foi presa em 1971

Lúcia Murat, homenageada da 9ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos, deu seu depoimento à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro em maio do ano passado. Em algumas horas, ela levou o plenário inteiro da Assembleia Legislativa do Estado às lágrimas, relembrando a tortura de que foi vítima ao ser presa em 1971. Aos 22 anos, Murat foi espancada, eletrocutada, chegou a perder o movimento nas pernas e deslocou o quadril. Foi, então, tratada e medicada para que não morresse. E depois foi torturada de novo, com baratas pelo corpo, mais espancamento e mais choques.

O cinema, nesse sentido, foi uma forma de sobreviver. “Foi uma forma de lidar com minha história pessoal. Você é obrigada a encontrar formas de trabalhar essa questão, de criar. E o processo criativo é muito prazeroso, então você passa a enxergar tudo com um certo distanciamento”, ela descreve, sobre a catarse proporcionada por seus filmes.

Para ela, esse é o poder do cinema aliado aos direitos humanos também para o público. “É informar o coração. A arte permite que você se emocione, por isso te atinge de outra maneira, mais completa. Por isso, ela é a melhor maneira de lutar contra o fundamentalismo: na política, na religião”, argumenta.

Essa forma de ativismo emocional chegou até Murat por questões circunstanciais. Após sair da prisão, ela começou a trabalhar como jornalista. Passou por vários veículos no Rio de Janeiro até parar no “Globo Repórter” que, na época, era feito com película.

“Eram coisas muito próximas, e eu sempre fui muito ligada em cinema”, ela explica. É essa ligação, segundo a cineasta, que faz com que ela se sinta privilegiada, mesmo com tudo por que passou durante a ditadura. “O cinema é muito amplo, te permite trabalhar com som, imagem, levantar e levantar questões sem ter que concluir. É um processo muito rico”, avalia.

E Murat vem levantando essas questões desde 1989, quando lançou seu primeiro longa. “Que Bom Te Ver Viva”, que abre a mostra hoje, às 19h. Traz Irene Ravache como narradora e protagonista em uma história semidocumental sobre a tortura de mulheres na ditadura.

“Talvez ele tenha sido o mais difícil de fazer, porque tudo estava ainda muito presente e envolvia muita gente que eu conhecia”, confessa a diretora. Ela voltaria a visitar os traumas da ditadura em longas como “Quase Dois Irmãos” (2004), no documentário “Uma Longa Viagem” (2011) – também exibido no festival – e em “A Memória que me Contam”, do ano passado, em que Ravache voltou a viver um alter ego de Murat.

Mas mesmo em suas produções que não tocam diretamente no tema, como “Doces Poderes” e “Brava Gente Brasileira”, que completam sua retrospectiva na mostra, a experiência por que passou se faz presente. “Foi algo muito limítrofe e marcante que eu vivi muito jovem. E aquela violência, o autoritarismo está em todos os meus filmes”, considera.

Para ela, o maior prazer dessa homenagem da mostra, que está rodando por todos os Estados do país, foi compartilhar essa catarse com um público novo que ela nunca tinha atingido. “Recebi ligações de Rondônia para falar sobre os filmes”, ela conta, feliz.

A cineasta acredita que a importância disso é que o Brasil tem uma relação muito difícil com sua história em geral – não só a ditadura, mas também a escravidão –, o que fica claro no baixo número de produções sobre o regime militar, comparado com o Chile ou Argentina.

De sua parte, Murat está pronta para transformar sua experiência em outros universos. Ela acabou de terminar o documentário “A Nação que Não Esperou por Deus”, retornando ao universo indígena de “Brava Gente Brasileira”, e está finalizando um longa experimental que alia dança contemporânea e Simone de Beauvoir, estrelado por Nathália Timberg e Andréa Beltrão. “É interessante que só recentemente venham surgindo mais filmes sobre o regime, contados por outra geração, mais jovem, não por quem viveu aquilo”, reflete, passando o bastão.

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