Muito mais do que o cinema

A 9ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos começa hoje no CCBB, lembrando os 50 anos do golpe militar de 1964

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Encontros. Curta “Tejo Mar”, da competitiva, narra experiência de um estudante português no Rio de Janeiro
SDH
Encontros. Curta “Tejo Mar”, da competitiva, narra experiência de um estudante português no Rio de Janeiro

Recentemente, a diretora Lúcia Murat visitou um museu na Argentina acompanhada de uma cineasta francesa. Em certo momento, elas passaram pelo memorial da ditadura do país, contendo vários registros, relatos e imagens das atrocidades cometidas pelo regime. “Ela virou para mim e disse ‘que bom que vocês não tiveram isso, né?’”, conta Murat, que foi presa e torturada pelos militares brasileiros.

Para ela, essa foi a grande vitória dos perpetuadores da ditadura no Brasil. “É assustador como houve uma venda da imagem do Brasil no exterior com samba, futebol e alegria, que se sobrepôs à ditadura”, considera. E esse apagamento agora acontece dentro do próprio país. “Sempre houve um apoio ao regime militar por parte de quem ganhou com ele, mas tinham vergonha de expressar isso. Vergonha que hoje não está existindo mais”, ela dispara, referindo-se às recentes manifestações a favor da volta dos militares ao poder.

É para resgatar essa memória e evitar essa reescrita inverídica e ofensiva da história recente do Brasil que a 9ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos começa hoje, tendo como tema central os 50 anos do golpe militar de 1964. Além da tradicional mostra competitiva, o festival – que vai até o dia 8 no Centro Cultural Banco do Brasil – vai homenagear a obra de Lúcia Murat, com uma retrospectiva de quatro longas da diretora, e conta ainda com uma seção especial, “Memória e Verdade”, voltada para filmes que abordam esse período negro da história brasileira.

“Existe uma produção muito vasta sobre o regime, então optamos por abordar a vastidão do tema misturando filmes antigos e recentes, e usando a moldura dos gêneros – desde o documentário a longas de ação”, descreve Rafael de Luna, coordenador da mostra e curador da seção especial. Esse panorama de estilos inclui o recente documentário “Setenta”, lançado pela diretora Emilia Silveira no ano passado, o longa “Ação entre Amigos”, dirigido por Beto Brant em 1998, e o clássico “Cabra Marcado para Morrer”, de 1985, de Eduardo Coutinho.

Diversidade. Para Luna, no entanto, a mostra tem um papel mais amplo, em face das manifestações xenófobas e antidemocráticas recentes, do que a simples discussão e o resgate histórico da ditadura. “O cinema é um excelente instrumento para conhecer e discutir o mundo”, afirma o coordenador. E ele acredita que um dos principais motivos por trás dessas declarações é que, nas redes sociais, as pessoas falam sem pensar.

“Vivemos restritos a um grupo de amigos na vida real ou no Facebook, e o cinema pode levar a um encontro com o outro e ajudar a pensar na identificação com ele”, propõe. E esse encontro vai ficar ainda mais amplo na edição deste ano, com a mostra deixando de se restringir a filmes apenas da América Latina e abrindo espaço para produções de todo o Hemisfério Sul – com curtas e longas de países como Egito, Índia e Jordânia.

“Acredito que muitas pessoas vão entrar em contato com a cultura desses países pela primeira vez por meio dos filmes e, na diversidade deles, vai descobrir questões e desafios muito parecidos com os do Brasil”, aposta Luna.

Segundo o coordenador, é essa chance proporcionada pelo cinema de abarcar culturas e temáticas muito diversas – surpreendendo e provocando reflexões e reações bastante variadas com um emaranhado de gêneros que vão da comédia ao documentário – que casa perfeitamente com os direitos humanos, um tema bastante amplo por si só. O festival deste ano, por exemplo, toca ainda em tópicos como a homofobia, nas produções nacionais “Jessy” e “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”; o poder e a cultura da mídia, com “O Mercado de Notícias” e “Doces Poderes”; e a violência urbana em “Mataram Meu Irmão” e “A Vizinhança do Tigre”.

Some-se ainda a sessão “Inventar com a Diferença”, que apresenta as produções resultantes das experiências de 300 escolas públicas e 4.000 estudantes de todas as regiões do país com o cinema e a produção de imagens. É por isso que Luna afirma que a mostra – que oferece todas as sessões em locais de acessibilidade garantida e com legendas em closed caption e áudiodescrição – é mais do que sobre filmes de direitos humanos: é uma ação de direitos humanos. “É uma questão de natureza mais profunda, para transformar o mundo em um lugar melhor e informar as pessoas a respeito disso”, define.

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