Quanto vale o show eleitoral?

iG Minas Gerais |

Quem gasta instantes sobre estas linhas não sabe quem é Helena Giovanni, mas pode ter ficado sabendo da história e se lembrará dela. A costureira de 63 anos foi votar no primeiro turno, em Piracicaba, onde mora, e se acidentou na entrada do colégio escorregando no material de campanha espalhado pelo chão. A senhora foi vítima da geologia eleitoral: pisou no sedimento superior de santinhos que se descolou do inferior, ocasionando o deslocamento da massa. O resultado foi uma fratura no braço esquerdo, tão grave que demandou cirurgia. Sem contar o trauma físico e sentimental – com medo, ela relatou à imprensa da região que não queria votar no segundo turno –, dona Helena ficaria “de molho” do trabalho por três meses. Precisa das mãos para trabalhar, mas, como a maioria dos autônomos brasileiros, não tem cobertura da Previdência Social para casos de acidentes. Não dispunha sequer de plano de saúde e precisou de vaquinha para arcar com a cirurgia no punho de R$ 5.000. Muito drama? Sim, no relato e no fato. A senhora paulista foi a vítima direta mais notória do sistema eleitoral brasileiro em 2014. Mas drama maior é tomar conhecimento de que o custo total das eleições foi de R$ 5 bilhões. A estimativa foi feita pela “Folha de S.Paulo” a partir das declarações contábeis dos comitês dos candidatos. Ou seja, dadas as enormidades do país e da quantidade de postulantes a cinco tipos de cargo, a cifra pode ser até conservadora. Como é dever de jornalista traduzir os números, a primeira comparação já foi dada: pelo preço das eleições, seria possível fazer 1 milhão de cirurgias ortopédicas como aquela a que foi submetida dona Helena. Da saúde para a educação, custa entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões uma escola de ponta, completa, ou de conclusão do ensino fundamental ou de ensino médio. Quantas não daria para fazer? Convém comparar também com duas demandas históricas dos mineiros. De acordo com o projeto enviado em meados do ano pelo governo do Estado à União, a construção da linha 3 do metrô de Belo Horizonte, entre a Lagoinha e a Savassi, está orçada em R$ 2,6 bilhões. Já para a duplicação da Fernão Dias no Leste de Minas, a estimativa do Dnit é de um investimento total de R$ 3,5 bilhões relativo aos 11 trechos da obra licitados. R$ 5 bilhões! É verdade, não é dinheiro público... quer dizer, foi dinheiro transferido por último de empresas aos comitês de campanha. E R$ 5 bilhões foram os valores declarados, informados ao TSE, portanto. Imagina o resto! Podia essa monta estar nas mãos dos governos para investir na melhoria da vida do povo. Mas não! Da dona Helena em Piracicaba à porcalhada dos cavaletes enfileirados na avenida, da invasão maciça via TV e rádio ao maldito jingle que entra no nosso ouvido pelo carro 1.000 com autofalantes que passa, do toma lá da doação ao dá cá da licitação, o eleitor sofre e é vítima do sistema eleitoral. Claro que a marca de R$ 5 bilhões é um recorde histórico. Agora, onde que essa curva exponencial vai parar? Uma resposta pode vir pichada na cauda do caldo do petrolão.

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