Hamlet em cada um de nós

Clássico de William Shakespeare chega a Belo Horizonte em montagem dos ingleses do Shakespeare Globe Theatre

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Vingança. A sangrenta história de “Hamlet” revela o que há de mais violento e cruel na relações de amor, ódio, interesse e política
Liz Lauren / Divulgacao
Vingança. A sangrenta história de “Hamlet” revela o que há de mais violento e cruel na relações de amor, ódio, interesse e política

Hamlet talvez seja o personagem mais complexo da história do teatro ocidental. Suas nuances e possibilidades são tamanhas que fazem o personagem central da peça que leva seu nome ser interpretado de maneiras diversas, com olhares e soluções cênicas quase infinitos. Amanhã e quinta, no Sesc Palladium, o público de Belo Horizonte poderá conferir uma montagem com o pedigree londrino do Shakespeare Globe Theatre, companhia que herda o legado inestimável do mestre inglês e que faz sua primeira turnê mundial.

“Acho ‘Hamlet’ tão belo e formalmente perfeito que acredito que será uma experiência continuamente enriquecedora para a companhia. E essa peça deve melhorar com a viagem – os atores a desenvolverão e, sem dúvida, ela será moldada pela experiência de ser apresentada ao redor do mundo. Hamlet também é uma peça versátil e pode ser diferente dependendo do local onde ela é interpretada. Em alguns lugares, ela será um desafio, em outros, uma inspiração, e em outros, um consolo. E os temas relacionados à paternidade, à infância, à revolta e à depressão são universais”, comenta Dominic Dromgoole, diretor artístico da montagem.

“São peças sobre pessoas que encaram desafios emocionais e, que aparentemente, têm uma complexidade de sentimentos, ações e pensamentos com os quais nós ainda nos identificamos. Além disso, tem a linguagem – ela se mantém linda, sem igual, de 400 anos para cá”, comenta Tom Bird, produtor da companhia.

PELO MUNDO. “Hamlet” nasceu como um projeto que colocaria o Globe Theatre na estrada. “Nosso diretor veio com a ideia de um ‘Hamlet’ viajando o mundo. Queríamos que fosse uma montagem icônica, mas também queríamos uma peça com real profundidade, com a qual os atores pudessem ter novas descobertas, novas interpretações durante um período de dois anos – ‘Hamlet’ é essa peça. A peça é apresentada no estilo de turnê do Globe, inspirada na maneira que imaginamos que as companhias tenham viajado nos dias de Shakespeare. O palco está aberto, a iluminação se mantém constante, com a plateia mais iluminada que o usual. A interpretação é direta e pautada no diálogo, não usamos a quarta parede. Nunca fingimos que a plateia não está lá”, comenta

A proposta dos londrinos é trazer uma montagem versátil que consiga dialogar com o público, mesmo que esse não fale inglês. “Enquanto viajamos, nós descobrimos que mais e mais a história chega marcantemente bem, até para aqueles que não falam inglês. Afinal, a maneira como Shakespeare escreve pode ser um desafio mesmo para aqueles que falam a língua”, garante Bird.

A turnê, que percorrerá 205 países, comemora o aniversário de 450 anos de nascimento de Shakespeare, e seu último compromisso será no dia 23 de abril de 2016, aniversário de 400 anos da morte do inglês, que curiosamente nasceu e faleceu no mesmo dia. Até nisso, o bardo foi um sujeito diferente da maioria. Ainda com muita estrada pela frente, mas já havendo percorrido alguns países, já é possível, para seus integrantes, avaliar como tem sido a turnê até aqui. “Há tantos ‘primeiros’ nessa turnê: a primeira vez que o Globe visita vários países; para alguns até mesmo a primeira vez que uma companhia chega a seu país; para uma minoria pequena, a primeira vez que veem uma peça de Shakespeare. Não importa onde nos apresentamos, as pessoas parecem ficar empolgadas conosco, pela audácia do nosso projeto. Torcemos para que isso continue. Claro que as reações de plateias de diferentes lugares mudam de país para país. É impossível adivinhar como as pessoas vão reagir. As respostas das plateias têm sido bastante impressionantes”, comenta Bird.

Uma das variáveis em se viajar para diferentes países é encontrar condições técnicas e particularidades próprias a cada novo espaço. Segundo Bird, a trupe se preparou para o desafio e o trabalho foi concebido considerando justamente “as novidades” que poderiam surgir. “Em qualquer espaço teatral, tentamos (re)criar algo da atmosfera informal do Globe. Isso quer dizer: os atores conversam com os espectadores antes dos espetáculos, os encorajando a reagir em voz alta, e a plateia fica de pé para que todo mundo possa se ver. A única coisa que não podemos recriar é o céu aberto, mas, pelo menos, não chove”, diverte-se o produtor.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave