Restrições israelenses afetam agricultores palestinos

Autoridade Nacional Palestina (ANP) emite licenças de tempo limitado permitindo que os agricultores realizem suas colheitas

iG Minas Gerais | DA REDAÇÃO |

Debaixo de um sol escaldante onde a secura impede que até uma gota de suor role testa abaixo, agricultores palestinos colhem suas azeitonas. Da distância, em meio aos relincho dos burros, se escuta a chamada para o salá (oração) ecoando por aquela paisagem bíblica.

Do alto de um morro, avista-se um pastor guardando suas ovelhas, do outro, uma de muitas das colônias ilegais judias que o governo israelense continua a construir na Cisjordânia, território palestino.

Todo o ano, por volta de outubro até novembro, agricultores palestinos correm contra o tempo afim de colher o máximo de azeitonas possíveis durante os dias que são permitidos a colheita em suas próprias terras.

A Autoridade Nacional Palestina (ANP) emite licenças de tempo limitado permitindo que os agricultores realizem suas colheitas.

Desde o inicio da ocupação israelense da Cisjordânia em 1967, agricultores palestinos vem sofrendo restrições que os impedem não só de colher, como também de arar, podar e fertilizar suas oliveiras.

Ashraf Abu Jame, de 69 anos, e sua esposa Eina, de 64, estão preocupados com a colheita desse ano. Seus 3 filhos Saed, 12, Nidal, 14, e Iyad, 17, foram presos pelas forças de ocupação israelense. Chorando, a mãe diz que "os soldados os levaram alegando que os garotos jogaram pedras neles". Saed e Nidal contudo já eram para estar em liberdade mas ainda continuavam presos.

Com os três filhos encarcerados, ela doente e 350 oliveiras prontas para a colheita, o casal se desespera com a permissão de 3 dias que receberam para trabalhar na própria terra. Azeitonas são a única fonte de renda dessa e de muitas outras famílias palestinas que se encontram em situações até piores que a de Ashraf e Eina, como a do Bashir Ibrahim ar-Reyati, que teve parte da sua fazenda cortada pelo "Muro do Apartheid" ou "Cerca de Separação" como é conhecido do outro lado da linha verde no território israelense.

Uma vez no meio da plantação, os agricultores estão expostos a dois tipos de perigo: as forças de ocupação e os colonos. O primeiro aborda e molesta os agricultores diariamente mesmo que estes possuam uma licença.

Já o segundo, por não ter ordens à obedecer, atacam fisicamente os agricultores, além de sabota-los. Sabotagens podem variar desde o roubo da safra e animais como também cortar, queimar e até extirpar oliveiras para a venda.

As oliveiras são símbolo de paz para os palestinos. Algumas árvores chegam a ter centenas de anos. Em mais de quarenta anos, Israel já extirpou mais de um milhão de oliveiras, causando terríveis consequências econômicas e ecológicas ao povo palestino. A destruição dessas árvores é uma ameaça à identidade e herança cultural desse povo.

Depois que a licença expira, o próximo obstáculo é de como atingir o mercado interno e externo. Com tantos checkpoints (blitz) na Cisjordânia restringindo o livre movimento de pessoas e produtos, as azeitonas e o azeite acabam por não alcançar todo o mercado interno.

Os agricultores palestinos também sofrem com a concorrência dos colonos, que diferentemente tem liberdade total de cultivo.

Para atingir o mercado externo, fica ainda mais difícil devido ao "Muro do Apartheid". A demora em atravessar todas essas barreiras faz com que o produto palestino perca sua qualidade e consequentemente afete sua concorrência no mercado.

Infelizmente o fim da ocupação israelense parece ainda estar muito distante. Os confrontos que vem acontecendo nas últimas semanas em Jerusalém e no resto da Cisjordânia, e a decisão do primeiro ministro israelense Binyamin Netanyahu de continuar construindo novas colônias judias na região deixam dúvidas sobre o futuro dos agricultores palestinos e de suas oliveiras. Em tempos de ocupação, azeitona se torna sinônimo de resistência.

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