O vácuo do pós-eleição

iG Minas Gerais |

No Brasil, os mandatos – de prefeitos, governadores e até presidentes da República não reeleitos – que se estendem após o período eleitoral geram a mesma sensação que representam os pedidos de “um tempo” nos namoros desidratados. Fica um vazio incômodo, improdutivo, quase fúnebre nesse lapso que se sucede aos outubros e a posse dos novos eleitos. Nada caminha, nada se constrói em favor das cidades, dos Estados e do país. Os sucessores, com suas equipes, sempre aguardam para desembarcar no escuro, muitas vezes, com a cautela de quem anda por campos minados, porque, em desfavor do interesse público e da sociedade, realmente os únicos prejudicados, há uma trama que se desenvolve com sabor de vingança para deixar para quem chega a pior herança, o imbróglio mais insanável, a confusão generalizada que vai custar ao vitorioso meses para entender e desembrulhar. Triste realidade essa que permeia a cabeça dos nossos administradores públicos, com raras exceções, que tratam como sua cozinha particular, espaços, estruturas e instituições que receberam pelo voto da sociedade, para governar. Já aconteceram casos em cidades, muitas delas de Minas Gerais, que prefeitos destruíram computadores, rasgaram registros, criaram generosos aumentos nas folhas de pagamento, nomearam concursados quase aposentados pelo tempo de espera para que isso acontecesse, apenas para ajudar a enterrar eventual êxito da administração que chegava. É o preço majorado da vitória. Lendo o noticiário político Brasil afora o que mais se evidencia como queixa é a falta de transparência nas informações com que os novos eleitos têm frequentemente sido punidos. No Espírito Santo, por exemplo, o governador eleito Paulo Hartung reclamou que sua equipe de transição não tem conseguido obter informações básicas do grupo atualmente no comando do Estado. Dados elementares sobre o organograma das secretarias, dos órgãos estatais responsáveis pela saúde, pelo sistema penitenciário, das finanças públicas, da habitação, têm sido totalmente sonegados ou oferecidos em formatos sintéticos, para dificultar sua compreensão e aproveitamento. Nem sequer a residência oficial onde vai morar o governador eleito será disponibilizada antes do dia 30 de dezembro, naturalmente para que seu novo ocupante mantenha na porta o caminhão de mudança até poder ocupá-la. Mas isso não tem maior importância. O que custa certamente é o improviso que acontecerá, a ser exercido pelos novos governantes que chegarão às suas administrações com demandas instaladas, muitas de difícil solução e engessados pela picuinha, pela mesquinhez, pelo jogo menor de homens públicos sem grandeza e responsabilidade. Essa conta, no fim, que paga é o povo.

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