Sem descontos e pudor, Racionais assaltam o rap

Depois de 12 anos, Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay lançam disco emblemático

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Icônico. A foto de capa foi feita próximo à agência bancária do Edifício Copan, um dos marcos paulistas
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Icônico. A foto de capa foi feita próximo à agência bancária do Edifício Copan, um dos marcos paulistas

É pedrada na certa, pode saber. São os “quatro pretos mais perigosos de São Paulo” de volta, fazendo aniversário e criando uma treta pesada neste 2014. Mais de uma década depois do último disco, “Nada Como Um Dia Após o Outro” (2002), os Racionais MC’s são outros, claro. Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay romperam o hiato para se vestir de garis da prefeitura paulista, carregando malotes e empunhando metralhadoras, protegidos sob máscaras do maníaco Jason, de “Sexta-Feira 13”. Sem legenda ou explicação. O recado está dado e o foda-se ligado em apenas uma imagem. Porque “Cores e Valores”, quinto álbum de estúdio do grupo, vale a compra pela foto de capa, simplesmente.

Mas, por consideração, também é de bom tom adiantar que as canções inéditas dos caras formam um único fio condutor, ligando os rolês pesados de 1990 até algum brilho de esperança atual, espelhado em parte da classe trabalhadora que atingiu outro nível de consumo no país; além de olhar para o rap que, a exemplo de Criolo, Emicida e Karol Conka , rompeu a barreira do gueto e se fincou até na Europa. De cara, “Cores e Valores” presenteou os fãs na calada da madrugada da última terça-feira (25), justo no ano de comemoração de 25 anos dos Racionais – o disco está disponível tanto para a compra pelo Google Play quanto para audição gratuita no YouTube (www.youtube.com/RacionaisTv). Com produção de Mano Brown e de DJ Cia, do grupo RZO – que voltou a atividade neste ano –, a influência americanizada do rap globalizado é nítida no abuso das batidas trap trap, que dominam o disco gravado no Maraca Estúdio, no Capão Redondo, e mixado no Quad Recording Studios, em Nova York: aquele beat duplo e moderninho popularizado no sul dos EUA por nomes como Young Jeezy e Luger Lex é pilhado o tempo todo – diferente da batida seca e direta característica dos Racionais. Outra novidade é que os cerca de 35 minutos das novas 15 faixas podem parecer pouco para quem estava acostumado com rimas aceleradas de 11 minutos vomitados em palavrões, rixas e necessidades de espaço para o oprimido sem voz. Mas “Cores e Valores” prova o faro fino do quarteto para fazer do rap uma percepção social volúvel e contínua. Isso porque o disco não se compõe por músicas isoladas: mas se forma como um tiro de apenas duas balas disparado com consciência e sem dó, num formato similar aos antigos LPs. Na lado A, o lema cores e valores é repetido entre oito canções que soam como uma só, refletindo tapas, socos e chutes embasados naquela linguagem “gangsta” nata dos Racionais, e apoiado por uma batida tensa e sombria. A faixa-título é um tapa na cara do que os Racionais foram, são e ainda podem ser diante da sociedade: “Gostar de nós tanto faz tanto fez / Tem que degradar pra agradar vocês, nunca / Por que eu não falei eles pensam que eu não sei”. As críticas usam também vozes de William Bonner e Caco Barcelos na enérgica “A Praça”, para ilustrar a histórica treta com a polícia na Virada Cultural, em 2007. No lado B – o menos “Negro Drama” dos quatro Racionais – acontece uma virada melódica, flertando com o pop e colocando até Mano Brown para rimar sobre amor, como em “Eu Te Proponho”. O single “Quanto Vale o Show?”, lançado como aperitivo do disco, tem um pandeiro na introdução e pegada black soul com solo envolvente de guitarra, remontando a história dos Racionais. Já “Eu Compro” reflete a mudança de condição social de parte da população com a qual o Racionais se criou e agora parece ter mudado junto. Como se o grupo assaltasse o rap que inventou há 25 anos para buscar um lugar ao sol, e agora pudesse aproveitar um pouco dessa luz: “Que o neguinho sem pai que insiste pode até chegar / Entra na loja, ver uma nave zera e dizer: ‘Eu quero, eu compro e sem desconto!’”.

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