Era uma vez Leone

Ícone do faroeste spaghetti e cronista da América em decadência, Sergio Leone tem retrospectiva no Humberto Mauro, a partir desta segunda

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Derradeiro. Último filme do diretor, “Era Uma Vez na América” foi remontado pelo estúdio
Warner / Divulgação
Derradeiro. Último filme do diretor, “Era Uma Vez na América” foi remontado pelo estúdio

Um crítico, especialista em Sergio Leone, disse que no faroeste hollywoodiano clássico, o protagonista é sempre o melhor atirador. Já no cinema de Leone, o melhor atirador é sempre o protagonista. Essa pequena enorme sutileza revela o olhar do cineasta italiano – cujos filmes reimaginaram o mito da construção da civilização norte-americana, enxergando nele as rachaduras morais que levariam à corrupção econômica e ao fim do idealismo do faroeste clássico –, homenageado a partir desta segunda no Cine Humberto Mauro com a retrospectiva “Sergio Leone: Era Uma Vez no Cinema”.

“Ele pega o espetáculo norte-americano e associa a uma sensibilidade irônica europeia”, define o pesquisador José Ricardo Miranda. Para ele, o faroeste spaghetti já existia antes, mas só fica inventado a partir do filtro do cinema do Leone. Isso porque o diretor – responsável por 12 longas (dos quais nove estarão na mostra) – representa uma ponte entre o cinema clássico, do qual era fã, e o cinema moderno que surgia nos anos 60, quando começou a trabalhar. “Ele desconstrói essas personas míticas do oeste clássico norte-americano, tirando suas arestas morais e fazendo deles arquétipos habilidosos, mas amorais, como peças de xadrez que vão se chocar em um jogo”, analisa. A dualidade desse olhar pode ser explicada pela própria experiência do cineasta, filho do diretor Roberto Roberti e da atriz Rice Valenti, ao crescer na Itália do pós-guerra. “Na minha infância, a América era uma religião. Até que os americanos de verdade abruptamente entraram na minha vida em jipes e destruíram todos os meus sonhos. Não eram aqueles americanos do Oeste. Eram soldados como os outros, materialistas, possessivos, interessados em prazeres e bens terrenos”, o cineasta descreveu em uma entrevista. Segundo Miranda, Leone usa essa percepção em um dos destaques da mostra, a famosa trilogia dos dólares – “Por um Punhado de Dólares”, “Por uns Dólares a Mais” e “Três Homens e um Conflito” –, que serve como metáfora da própria Itália. “É uma espécie de ruína do pós-guerra italiano, que vai desaparecer pela presença econômica forte e pela corrupção moral pontuada pelo dinheiro”, argumenta. Os três filmes marcam uma das principais parcerias do diretor, com Clint Eastwood – um ator de TV que só chegaria ao primeiro escalão após a trilogia. Para o pesquisador, o encontro foi mutuamente benéfico. “O Leone construiu uma persona que viria a influenciar e apareceria nos filmes do Clint como diretor. E o Eastwood, ao tirar falas e diminuir a participação verbal do seu personagem, fortalece o mistério dele e o caráter mítico pelo qual os filmes do Leone ficariam conhecidos”, explica. Mas sem sombra de dúvidas, a parceria mais marcante do italiano é com o compositor Ennio Morricone. Em sua filmografia marcada por pausas – por uma distensão do tempo e espaço para antecipar e potencializar a ação e o conflito, algo típico do cinema moderno –, a trilha do grande maestro tem um papel inquestionável nessa manipulação. Além disso, ao ser muitas vezes composta antes das filmagens para tocar no set, algo bastante incomum no cinema, ela cumpre uma outra função essencial. “Tem o caso do ‘Era Uma Vez na América’, em que o De Niro quer conversar sobre o processo de pesquisa dele para o papel, e Leone fala que ele só precisa escutar a trilha para entender o protagonista. A música do Morricone ajuda a construir e desvendar os personagens e os ambientes, que também são personagens para o Leone”, analisa Miranda. Para o crítico, é na trilogia encerrada por “Era Uma Vez na América” (e iniciada com “Era Uma Vez no Oeste” e “Quando Explode a Vingança”), por sinal, que o italiano aperfeiçoa e cristaliza sua narrativa. “Em todo filme, ele cria uma fábula, um mito, uma situação instituída que está sempre próxima do fim. Todo longa dele é o início do fim de algo”, elabora o pesquisador. Em “América”, são os bandidos e a máfia de rua, que vai ser substituída por um crime institucionalizado e político. Em “Oeste”, são os foras da lei do cinema clássico que perdem o seu lugar e são enxotados com a chegada da ferrovia. “É sempre um estilo de vida sendo substituído por uma instituição econômica e moralmente corrupta”, sintetiza Miranda. Ironicamente, essa narrativa espelharia a própria trajetória do diretor. Em sua breve carreira, ele ajudou a restabelecer e consolidar o faroeste moderno para, logo em seguida, perder o controle dos seus filmes quando se associa ao dinheiro de grandes estúdios. Tanto “Era Uma Vez no Oeste” quanto “na América” foram remontados pelos produtores e fracassaram nas bilheterias (as versões na mostra são as originais do diretor). E sua personalidade irascível no set – reza a lenda que um extra se suicidou no set de “Oeste” após ser maltratado e, enquanto tentavam levá-lo para o hospital, Leone gritou “tirem o figurino, precisamos do figurino!” – fez com que ele se alienasse da maioria de seus colaboradores, morrendo em 1989 sem o devido reconhecimento. Ainda assim, o italiano resistiu e permanece uma das principais influências do cinema atual, em nomes como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. “A mudança dos tempos alimentou o cinema dele, e o cinema dele alimentou um outro que viria a radicalizar seu olhar amoral e arquetípico, tornando-se pura ação”, conclui Miranda. 

Sergio Leone Quando. Desta segunda a 8/12 e de 15 a 18/12 Onde. Cine Humberto Mauro – av. Afonso Pena, 1.537, Centro Confira a programação gratuita no www.fcs.mg.gov.br

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