Querosene neles

iG Minas Gerais |

souzza rodrigo
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Envelopes chegam aos borbotões numa redação de jornal. Agora até um pouco menos, depois da internet, em relação ao que os Correios entregavam antes dela. Mas a quantidade ainda é grande, e boa parte poderia ser substituída pelo email. Na leva diária que distribuem pelas bancadas dos jornalistas, não há tempo para minúcias. O exame dessas correspondências, então, deve ser ligeiro em meio a tantas coisas a fazer ao mesmo tempo. É preciso ser rápido como passar por uma consulta em uma clínica de urgência atualmente. Em uma dessas remessas recentes, apalpei um envelope pardo, tamanho meio ofício, com os dados de remetente e destinatário (a minha pessoa) datilografados. Não identifiquei quem enviou como uma pessoa ou empresa conhecida. Abri, e qual não foi minha surpresa quando desdobrei três folhas caprichosamente datilografadas!! Uma carta, à moda antiga, em 2014. A leitora desta coluna, que, como não me deu autorização, não terá o nome citado, mora em Conselheiro Lafaiete. Ela se sentiu estimulada a partilhar (nesse caso, melhor não escrever compartilhar) suas dificuldades em enfrentar os pernilongos, a partir de uma crônica recente em que esmiucei tal batalha. R.S.L. (as iniciais são falsas, mas a carta é verdadeira) conta que testou sem sucesso várias receitas caseiras contra esses malditos: cravos em potes com vinagre, cascas de laranja, queima de embalagens de ovos. O jeito foi apelar para o ataque manual com toalhas, panos molhados e vassoura. Até que um dia, ao usar querosene para limpar a estante, pois, garante ela, é o mais eficaz contra o caruncho, observou que os pernilongos sumiram no período noturno. Alívio!! Querosene neles! Antes de oferecer essa revelação, R.S.L. (não precisa tentar decifrar) narrou uma de suas experiências com pernilongos: “À noite, lendo ‘Obsessões e Outras Histórias’, de Isaac Bashevis Singer, ouvi um zumbido próximo, estendi a mão e consegui capturá-lo. O abati. A maior proeza e satisfação é vê-lo esmagado, destruído nas mãos, aquela pasta sanguinolenta, inerte”. Escreve bem R.S.L. . Vou dizer isso a ela quando encontrar um tempo para redigir minha resposta e ir até o correio. Não faria essa desfeita de não responder, depois de percorrer as linhas das três páginas datilografadas. Só não usarei máquina de escrever, porque a que guardo está estragada (boa desculpa). Minha leitora conta também das dificuldades para encontrar o jornal O TEMPO em Conselheiro Lafaiete. Percorre três, quatro bancas, às vezes se deslocando para bairros diferentes, na busca de um exemplar. Daí é que se conclui como as palavras também alimentam, mesmo que estejamos falando de pernilongos.

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