Corrupção está na rotina dos negócios fechados no país

Funcionários que cobram a propina lucram, mas a empresa perde porque paga mais

iG Minas Gerais | Ana Paula Pedrosa |

Caminho do dinheiro. Petrobras protagoniza escândalo, mas pagamento de propina é encarado como normal para se fechar contratos
André Valentim/Agência Petrobras/Divulgação
Caminho do dinheiro. Petrobras protagoniza escândalo, mas pagamento de propina é encarado como normal para se fechar contratos

“Se você tem um produto bom, seu preço é de mercado, seu atendimento é bom, e você não consegue entrar (em concorrências), tem corrupção no meio”. O relato é de um empresário de Belo Horizonte que fornece equipamentos para o setor da indústria. Acostumado a ouvir pedidos dos mais diversos para fechar contratos, ele conta que a corrupção é aceita normalmente em algumas empresas como parte do negócio. No momento em que a operação Lava Jato da Polícia Federal expõe as irregularidades na Petrobras, o empresário conta que a cobrança “por fora” é parte da rotina também dos negócios fechados apenas entre empresas privadas. “Muitos são cara de pau mesmo, pedem a propina sem fazer rodeio”, conta. “Presentinho”. O empresário diz que, há pouco tempo, o responsável pelo setor de compras de uma grande indústria o recebeu no escritório, mas deixou a proposta irregular para outro momento. “Eu apresentei o produto, conversamos normalmente e, no fim, ele disse que ia me acompanhar até o carro. Chegando lá, falou sem rodeios: ‘Tem que deixar o presentinho da turma. Aqui, nós trabalhamos assim’. Foi a segunda vez que me chamaram na ‘cara dura’ para fazer uma proposta assim”, relata. O “presentinho” era o equivalente a 10% do valor do contrato, a ser pago “por fora”, em dinheiro – prática conhecida na gíria como mala preta. Em outros casos, o percentual da corrupção é acrescido no contrato, aumentando o preço de algum produto ou cobrando por serviços que não foram prestados até completar o valor que foi acordado. Enquanto os funcionários que cobram a propina lucram, a empresa sai perdendo, porque vai pagar um valor superior ao que seria o preço justo. Mas nem sempre a propina é um valor equivalente ao contrato. Em alguns casos, quem faz a proposta se contenta com pequenos agrados para facilitar o caminho do fornecedor. “Tem uns mais humildes. Pedem um jantar em um restaurante bom, jogam indiretas, do tipo ‘perdi meu celular e não estou podendo comprar outro’ ou ‘estou precisando tanto de uma câmera nova’”, relata. Medo. A reportagem conversou com outro empresário e com funcionários de empresas privadas do setor médico e da indústria, que relataram casos semelhantes de corrupção. Entre eles, pagamento de propina a bancos para liberarem grandes financiamentos – para construções, por exemplo –, e “presentes” para fechar negócio. Nenhum deles, porém, aceitou dar entrevista, nem mesmo sob anonimato, por medo de represálias. Eles temem ser prejudicados tanto pelos corruptores quanto por seus colegas, e dizem que, mesmo sem concordar, acabam “entrando na dança” e pagando propina, para não ficarem fora do mercado.

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