Meninas sequestradas pelo EI fogem e contam suas histórias

Para ter a filha de volta, família precisou pagar US$ 3.700 a árabe

iG Minas Gerais | Kirk Semple |

Medo. Milhares de meninas foram obrigadas a deixar a região onde moravam após ataques do EI
Hadi Mizban
Medo. Milhares de meninas foram obrigadas a deixar a região onde moravam após ataques do EI

Khanke, Iraque. A garota de 15 anos, chorando e aterrorizada, se recusava a largar a mão da irmã. Dias antes, integrantes do Estado Islâmico (EI) tinham tirado as meninas da família e naquela hora tentavam separá-las para distribuí-las como “prêmios” de guerra. O jihadista que escolheu a jovem pressionou o revólver contra a cabeça dela, ameaçando puxar o gatilho, mas só quando ele pôs a faca no pescoço da irmã, de 19 anos, que a menina se entregou, dando início a uma série de violência e abuso.

As irmãs estão entre milhares de meninas e moças da minoria yazidi sequestradas pelo EI, no norte do Iraque, no início de agosto. A garota de 15 anos também faz parte da pequena minoria de vítimas que conseguiram fugir, trazendo histórias de uma verdadeira indústria de escravidão. Seus relatos incluem meninas e jovens separadas das famílias, divididas ou trocadas entre os extremistas, forçadas a se converter ao islamismo e a se casar, e estupradas inúmeras vezes. Muitas ainda vivem no norte e no oeste do Iraque, sob o controle do EI, mas várias foram enviadas à Síria ou a outros países.

Cinco meninas e mulheres que fugiram recentemente concordaram em contar suas histórias, desde que suas identidades fossem mantidas em sigilo. Entre elas estava D.A., a garota de 15 anos cuja história abre essa matéria. Ela começou a viver os horrores impostos pelo grupo jihadista em agosto, quando ataques realizados pelo EI na região onde morava a forçaram a fugir com a família do local. Ela viajava de carro com os pais, cinco irmãs e uma sobrinha, mas eles foram interceptados pelos militantes, que os reuniram a outras famílias e os levaram a um prédio da cidade de Sinjar. A seguir, separaram as mulheres e meninas dos homens e garotos; mais tarde, separaram as mulheres solteiras e meninas mais velhas, conta D.A. “Eu chorava, agarrada a minha mãe. Um dos homens veio, me bateu e pôs o revólver na minha cabeça. Minha mãe me disse para ir com ele, senão eu seria morta”, contou ela.

Viagem. Junto com dezenas de outras garotas, D.A. e duas de suas irmãs – a de 19 e outras de 12 anos – se juntaram ao comboio de três ônibus e foram levadas para Mosul, reduto do EI. Quando chegaram, D.A. e suas irmãs ficaram nove dias presas em uma casa, junto com outras mulheres e meninas para, a seguir, serem levadas a um prédio de três andares lotado de prisioneiros. No local, os radicais paravam para escolher e levar as meninas e jovens que quisessem. O homem que escolheu D.A. tinha barba, mas não muito longa, e o cabelo também não era muito comprido. A princípio ela se recusou a ir, mas, ao ver a faca contra o pescoço da irmã, desistiu de lutar.

Síria. Ao longo das semanas seguintes, foi levada para pelo menos outros oito lugares até atravessar a fronteira, sendo conduzida para a Síria. Ela se lembra de passar um dia em uma casa branca, perto de um lago, perto de Raqqa, onde os extremistas procederam a mais uma rodada de negociações envolvendo as meninas. “Parecia um leilão”, lembra.

Na mesma casa, as garotas foram forçadas a se banhar e colocar roupas conservadoras islâmicas. Algumas não tinham mais que 11 anos. Nenhuma das fugitivas entrevistadas disse ter sido estuprada no cativeiro, mas uma delas contou que repeliu uma investida sexual, e todas disseram ter conhecido garotas que tinham sido violadas, muitas vezes por vários homens.

D.A. foi ameaçada de ter que se casar à força, e esse fato a fez até pensar em suicídio, mas ela preferiu tentar fugir. Tarde da noite, ela e outra menina se espremeram por uma janela e saíram correndo, até chegarem a uma casa em uma área rural. Bateram na porta e foram atendidas por um jovem árabe disposto a ajudar.

Ele as levou à casa de uma família curda, que entrou em contato com o irmão de D.A. e combinou um encontro em uma região curda da Síria. Cada família pagou US$ 3.700 ao árabe. Perguntada sobre por que o árabe se arriscou para ajudá-la, D.A. disse: “Acho que ele precisava do dinheiro”.

Escravidão

Artigo. O EI reconheceu a indústria escravagista em um artigo na “Dabiq”, revista online do grupo. Representantes disseram que estavam revivendo um costume justificado pela lei islâmica (sharia).

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