Eterno conflito: organizados x bagunceiros

iG Minas Gerais |

Das características inerentes ao temperamento humano, o excesso de organização ou a falta dela são das que geram mais conflitos nas relações. A grosso modo, poderia insinuar que bagunceiros e perfeccionistas são essenciais para a evolução da espécie. E, vistos sob um olhar mais compreensivo, guardam virtudes e defeitos que, somados, subtraídos, multiplicados ou divididos, são complementares. Esquisito ainda é como adoram um ao outro, talvez pela lei da atração de opostos: bagunceiros e desorganizados adoram se acasalar entre tapas e beijos.Mas vamos tentar entender um e outro. Começarei pelos organizados, perfeccionistas, detalhistas, enfim, aqueles que têm mania de organização e limpeza. Trazem no seu íntimo alto grau de exigência própria ou relativa aos que os cercam. Odeiam errar, ser chamados a atenção. Para tal, precisam controlar tudo a sua volta, daí há uma certa tendência a autoritarismo, nervosia e impaciência; o que os fazem ser mandões é querer controlar tudo o tempo todo. Nas terapias que faço com os perfeccionistas e obsessivos, gosto de usar uma expressão para defini-los: são os “hiper”! Tudo é exagerado e extremo, então, se caracterizam por serem hiperpreocupados, hiperansiosos, hiper-responsáveis, hiperdedicados e hiperexigentes, e daí em diante. Só que virtude demais é defeito, e vale a velha história “sem sol planta não cresce, mas sol demais mata a planta”. Lamento informar que os organizados e perfeccionistas são os maiores candidatos a ter síndromes ansiosas ou depressivas, afinal, por excesso de pensar, sofrer por antecipação, ser muito centralizadores e assumir chefias e comandos e, não raro, ser hiperativos e viciados em trabalho, um dia a casa cai. O núcleo de tal comportamento é a insegurança, culpa extrema. Para não errar, costumam ser ritualistas, cheios de manias, controles, necessidade de checar e revisar o que fazem ou quando delegam; não confiam e conferem o tempo todo. Muitas vezes são nervosos e explosivos, são muito críticos e impacientes. Mas, sem dúvida, têm muita competência, perseverança, capacidade de execução. Não raro, têm cargos de chefia, são ótimos executivos, mas é difícil o convívio pelo autoritarismo, difícil trato. Difícil relaxar, são radicais para alguns temas, bravos, sofrem consigo mesmos. E os bagunceiros? Bons vivants, desligados, desorganizados, proteladores, deixam tudo para a última hora. Preguiçosos e inventivos, têm sempre uma desculpa ou justificativa criativa para se defender dos atrasos e das faltas. Acumulam roupas sujas no chão do quarto. Indisciplinados, perdem tudo e estão sempre improvisando. Relaxados e muitas vezes carismáticos, têm grande facilidade social, “gente boa”, parecem viver só no recreio. Tanto faz o rio correr para baixo ou para cima. Convivem com o caos, por preguiça de organizar ou disciplinar seu espaço e sua vida. Costumam ter ideias originais pela criatividade e, com isso, podem ser bons empreendedores. Serão bem-sucedidos, contando que contratem um obsessivo e organizado para ser seu braço direito, gerente ou executivo. Avoados e desapegados, têm aparência relaxada e informal. Gostam de correr risco, mas podem pecar por inação. Sentem ansiedade e culpa por deixar tudo para última hora. Mas são menos sujeitos a adoecer física e psicologicamente. Pois não é que há um encaixe perfeito? Pena que esses dois tipos de temperamento muitas vezes passem a vida brigando, um querendo impor suas características ao outro, esquecidos que a natureza criou personalidades distintas, exatamente para enriquecer as relações humanas. O que sobra num, falta noutro, e essa é a graça. Cabe ao bagunceiro disciplinar-se minimamente e, ao organizado e perfeccionista, aprender a errar, relaxar, engatar um “azar, deixa como está” em vez de querer tudo sob controle e organizado. E nunca se esquecer de que o mundo foi feito pela criatividade e a capacidade de ousar e sonhar do bagunceiro, somada à incrível capacidade de trabalho, execução e planejamento dos organizados e perfeccionistas. Nem melhores nem piores, apenas diferentes e complementares. E viva o equilíbrio, o prazer e relaxamento!

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