Explorando novas vozes

Fred Bottrel Diretor, jornalista e ator

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Leonardo Ângelo/ Divulgação
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Depois de passar pelo curso de cinema na New York Film Academy, o jornalista e ator formado pela Fundação Clóvis Salgado lança seu primeiro curta-metragem, “A Ala”. A obra inaugural, que mostra histórias de detidos na primeira ‘ala gay’ do sistema prisional brasileiro, recebeu três prêmios no Festival Mix Brasil, incluindo melhor filme pelo júri popular, e do Canal Brasil.

Seu filme “A Ala” aborda dois temas complexos da sociedade brasileira: sistema carcerário e questões LGBT. Como surgiu a ideia de fazê-lo?

Eu soube que a ala para os presos LGBT existia durante conversas com amigos e me surpreendi quando, pesquisando, não encontrava nenhuma matéria de jornal ou mesmo páginas institucionais abordando o assunto. Fiquei curioso e escrevi o projeto do curta. Levantamos tudo na produção independente, em parceria com a Olada, produtora audiovisual de Belo Horizonte. O filme foi feito muito rapidamente, porque o motor inicial era justamente a urgência de dar voz a esses personagens extremamente interessantes, importantes e esquecidos na clausura de um projeto bacana, mas escondidos, por “n” motivos. Conseguimos autorização da Secretaria de Segurança Pública e viabilizamos as gravações. Foi fácil convencer as travestis a participarem das filmagens?

Isso nunca foi um impedimento. Todos os entrevistados do filme foram extremamente cordiais e generosos durante nossas conversas. Do ponto de vista humano, foram encontros muito verdadeiros – estavam bastantes disponíveis, mesmo quando expunham suas histórias para a câmera. E do ponto de vista cinematográfico, isso acaba estampado em um nível de sinceridade que grita na tela. Qual cena mais te marcou?

Eu não posso contar porque é uma surpresa com uma personagem inesperada no meio do filme, que não aparece no trailer e em nenhuma imagem de divulgação. Foi uma surpresa para nós da equipe também e preferimos trazer essa mesma experiência na narrativa de divulgação e também do filme. Tudo que eu posso dizer é que foi alguém que encontramos quando as filmagens já estavam encerradas, do lado de fora do presídio de Vespasiano. Começamos a conversar por acaso, e o papo foi tão incrível que logo remontamos o equipamento e filmamos a entrevista. Suspense. Mas as histórias sobre experiências anteriores em convívio masculino, os dramas familiares dos detentos e a resignação sincera de alguns dos entrevistados ao admitir planos para continuar no mundo do crime depois da pena também foram bem marcantes. O curta foi consagrado com três prêmios no Festival Mix Brasil de Diversidade Sexual. Em que medida essa premiação é importante para sua primeira obra?

O prêmio de melhor filme na avaliação do público é maravilhoso porque mostra que a narrativa foi capaz de fazer dessas personagens figuras queridas – se você não gosta de um protagonista, dificilmente vai gostar de um filme. Nenhum finge que é inocente, mas são humanos e é muito legal quando um produto tão editado quanto um curta de 20 minutos consegue mostrar isso. Acompanhar as reações da plateia no calor das sessões foi experiência sensacional para um diretor de primeira viagem, acostumado no jornalismo, à reação distante do consumidor da notícia. Por outro lado, a menção honrosa do júri vai para a causa e para a relevância de tocar em um assunto de abordagem tão rara. E o prêmio do Canal Brasil amplia a visibilidade do tema, com a exibição do filme na TV paga. Os três foram absolutamente inesperados e dizer isso não é falsa modéstia; o filme é realmente simples, a força está toda no que as personagens dizem. Você acha que a “ala gay” é uma medida que respeita os direitos humanos das pessoas que ali estão? Deveria ser adotada por outros presídios?

O Conselho Nacional de Justiça e a Secretaria de Direitos Humanos recomendam a implantação de alas do tipo em todo o sistema prisional brasileiro. A situação de vulnerabilidade dessa população carcerária, quando constrangida a um sistema masculino-feminino, é algo muito chocante. Uma entrevistada do filme, detida no interior de Minas, conta que, em punição à homossexualidade dela, foi colocada em uma cela junto a um estuprador. Ela relata que ateou fogo aos colchões para conseguir a transferência para um presídio onde pudesse conviver apenas com homossexuais. A pena de um criminoso não pode ser mais dura porque ele é homossexual – e na prática, no convívio masculino, é o que ocorre. O filme debate a questão entre os próprios detentos, que relatam pontos positivos e negativos dos dois modelos. Mas é claro que o direito de exercício da identidade de gênero deve ser respeitado e esse é o fio condutor da proposta. As travestis que querem, por exemplo, ter um dia para se maquiar (algo impensável no convívio masculino, e fundamental para a autoestima delas). Obras cinematográficas de conteúdo LGBT têm crescido, em quantidade, nos últimos anos, e também tendo mais repercussão, vide “Hoje Eu Não Quero Voltar Sozinho”, “Praia do Futuro” e “Tatuagem”. Você acha que segmentar obras como gay ou não gay seja importante para a comunidade LGBT? Por quê?

Acho que a diferença não pode ser apagada, inclusive para não permitir que se crie igualdade de direitos e oportunidades. O discurso que apaga a diferença não é nada produtivo – ao contrário, serve à manutenção de um status quo. Por outro lado, se houvesse locadoras de vídeo hoje em dia, seria contraproducente criar um gênero chamado LGBT, porque é interessante que esses filmes se comuniquem com audiências que não procurariam a tal prateleira. A ampliação dessa temática tem a ver com uma série de fatores sociais e principalmente econômicos, à medida que esse nicho consumidor ganha lugar nas planilhas de marketing das empresas. Mas a cultura ganha, na diversificação de olhares. No fundo, é o que importa. Você é jornalista, ator e agora estreia como diretor de curta-metragem premiado. As profissões se complementam de alguma forma?

O roteiro de “A Ala” foi criado na linha do tempo da mesa de edição, quase como uma improvisação – tive experiência nos palcos de Belo Horizonte por cinco anos pesquisando a improvisação com a Uma Companhia e a diretora Mariana Lima Muniz. Acho que desse tempo também ficou a coragem de meter a cara em projetos desconhecidos, como se o medo não fizesse sentido – e não faz mesmo. Os princípios de dramaturgia daquela época eu pratico no jornalismo e não foi diferente nessa primeira experiência para o cinema. Fale um pouco mais sobre essa interlocução entre seu trabalho de jornalista e diretor.

Algumas técnicas narrativas são comuns ao teatro, ao cinema e ao jornalismo, especialmente as que dizem respeito a manter o interesse da audiência. Claro que as linguagens são diferentes, mas algumas estratégias de alinhavar histórias para manter o suspense e a atenção do público dialogam sim, mesmo entre formas de ‘escrita’ tão diversas e aparentemente dissociadas. O que achou da experiência de dirigir um curta? Vai repetir?

A criação de um projeto audiovisual autoral era uma vontade antiga e construir narrativa a partir de personagens tão humanas, um prazer que certamente eu vou repetir. A repercussão que o filme teve é o melhor combustível para ir em frente.

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