Quem tem medo de Olive?

HBO Brasil estreia nesta terça-feir a a minissérie “Olive Kitteridge”, aclamada no último Festival de Veneza

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

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Hoje em dia, sucessos e grandes filmes nascem em festivais de cinema quase instantaneamente. Um crítico de respeito ou um repórter sai de uma sessão em Cannes e “tuíta” que o longa “x” é uma “obra-prima” e, bang!, nasce um favorito à Palma de Ouro. Uma das produções mais comentadas e aclamadas no último festival de Veneza, porém, não chegou nem a concorrer ao Leão de Ouro. Porque não era um filme.

Mais um exemplar da era de ouro da televisão norte-americana, “Olive Kitteridge” estreou no Lido em meio a nomes respeitados do cinema mundial e se tornou rapidamente um dos trabalhos mais elogiados pelos críticos e jornalistas presentes. A minissérie de quatro capítulos foi exibida em duas noites no festival, com dois episódios em cada sessão – mesmo formato escolhido pela HBO Brasil, que estreia a produção nesta terça-feira, às 22h, e exibe a segunda parte na terça seguinte, dia 9, no mesmo horário.

A obra é adaptada do livro homônimo de Elizabeth Strout, vencedor do Pulitzer em 2009. Composto de 13 contos, ele acompanha 25 anos na vida da pequena cidade de Crosby, no Maine, pelos olhos da personagem-título, vivida pela excepcional Frances McDormand. Foi a atriz, por sinal, que adquiriu os direitos da obra e batalhou por sua adaptação quase impossível, dado seu formato episódico e multilinear – e o baixíssimo interesse do cinema norte-americano hoje por estudos aprofundados de personagens que não são robôs gigantes ou super-heróis.

A solução foi levar o projeto para a HBO, com a roteirista Jane Anderson (“Colcha de Retalhos”) adaptando quatro dos melhores capítulos do livro e a diretora Lisa Cholodenko (“Minhas Mães e Meu Pai”), com quem McDormand já havia trabalhado em “Laurel Canyon – A Rua das Tentações”, assinando a direção. E o resultado é um dos produtos mais bem escritos, dirigidos e atuados, em qualquer formato, em 2014.

Humor negro. “Olive Kitteridge” é o estudo do conflito entre uma cidade besta, um tanto hipócrita e sufocante, e os habitantes que tentam escapar de sua bruma melancólica e do inverno epidêmico de sua alma. A Crosby construída por Cholodenko é cinza e sem um pingo de vida ou originalidade porque representa a herança de morte, depressão e suicídio que assola os personagens – os quais, ao tentarem sobreviver como podem, são a verdadeira riqueza do local. Um deles resume bem ao citar um poema de John Berryman, “salve-nos de espingardas e suicídios paternos / Misericórdia! / não puxe o gatilho ou, por toda minha vida, sofrerei por sua ira”.

E se esses temas fazem a minissérie parecer deprimente ou pouco convidativa, a adaptação de Anderson é um dos roteiros mais divertidos do ano. É quase impossível passar uma cena inteira sem gargalhar do humor negro com que a obra observa esse universo. Porque os principais eventos – mortes, tragédias, casamentos, divórcios, adultérios – não acontecem com a protagonista, mas com os personagens ao seu redor. E o eixo que conduz a narrativa são as reações de Olive e seu marido, Henry (o sempre carismático e talentoso Richard Jenkins), a esses acontecimentos – como os dois afetam e são afetados por eles.

O conflito dos pontos de vista diametralmente opostos do casal é onde a história explora as diferentes formas de encarar a vida. Se Henry é a definição de um “homem bom” - generoso, compreensivo, amável, educado –, Olive é aquela pessoa cuja extrema inteligência a torna patologicamente incapaz de ser feliz (e de aceitar a felicidade dos outros). Amarga e com uma sagacidade igualada somente pela fome insaciável, cada observação e diálogo que sai da boca da protagonista é um vômito ácido. Como os arrotos que ela não controla, tudo que Olive come (e ela come o tempo todo) parece voltar em um refluxo como um golpe de navalha determinado a cortar alguém – na maioria das vezes, Henry, ou o filho Christopher (John Gallagher Jr., de “The Newsroom”).

E os jantares em que esses polos opostos se embatem são as cenas mais bem escritas do ano, com diálogos que têm a rapidez e a inteligência de Billy Wilder e a acidez mordaz de Mike Nichols. São momentos que mostram que casamentos não são feitos de amor, mas sim da capacidade de se odiar mutuamente e não conseguir viver um sem o outro.

Performance. Olive não atura idiotas ou sentimentalidades porque seu objetivo único é a sobrevivência – sua e de sua família – à mediocridade e à maldição ao seu redor. Isso faz com que ela seja mais gentil com seu jardim do que com as pessoas mais importantes de sua vida. E o resultado disso no final da história é de uma honestidade de partir o coração – especialmente quando ela conhece o personagem vivido por (um sempre surpreendente) Bill Murray, que faz o público colocar em perspectiva todos seus julgamentos a respeito da protagonista. Porque, no final das contas, “Olive Kitteridge” é sobre como é impossível escapar de quem você é.

E por mais que Jenkins, Murray e todo o elenco estejam impecáveis, é Frances McDormand quem brilha – num papel que é o extremo oposto da Marge que lhe deu o Oscar em “Fargo”. Mais que a falta de vaidade no cabelo e no figurino, a atriz entrega o que talvez seja a melhor performance de 2014 ao não trair sua personagem em nenhum olhar, nenhum gesto, nenhuma entonação. É uma daquelas transformações tão perfeitas que parece que nós sempre a vimos assim. E que, ao mesmo tempo que não pede que gostemos de Olive, consegue isso com a integridade e complexidade que confere a ela. É um trabalho digno de palmas, leões, ursos e carecas de ouro. Só que está na televisão, e não no cinema.

Estreia “Olive Kitteridge” Onde. HBO Brasil Quando. Nesta terça-feira, dia 2, e na próxima, dia 9, às 22h

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