O combate de Pedro Cantonês com Odilon Loures

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A corrupção, a covardia e o assassinato gratuito são invenções da riqueza e do poder, queiram ou não os poderosos
Intervenção sobre imagens de revólveres
A corrupção, a covardia e o assassinato gratuito são invenções da riqueza e do poder, queiram ou não os poderosos

Hora? Dez da manhã ou quatro da tarde, não importa. Ano? Qualquer um, entre 1935 e 1945. Local? A minúscula praça principal de Bocaiuva, pacata cidadezinha do norte de Minas. Raros passantes na lerda labuta cotidiana. De repente, o alarido, a correria, o tumulto. Desaforos, palavrões cabeludos. Começa o frege. MEMÓRIAS VÃS Durante algum tempo celebrou-se na cidade o conflito. Assunto de esquinas, mesas de bar, balcões de lojas, baticum de comadres, papo de zona. Deus Cronos, que tudo determina e tudo reduz a nada, apagou da lembrança de homens, mulheres, crianças, cachorros, bêbados e loucos aquela escassa meia hora de corre-corre entre gritos de: “Cuidado!”, “Abaixa!”, “Sai daí, menino!”. Milhões e milhões de acontecimentos semelhantes e nada restou, engolidos pelo areal do deserto indiferente e pelas ondas do mar portentoso. Quem somos? Quem fomos? Que herança imemorial deixamos? Nada. Somos nada, fomos nada, deixamos nada como herança aos que vieram depois, e que também nada deixarão. Mas Odilon Loures e Pedro Cantonês deixaram algo: uma bala 32, esguichos de sangue e um bailado de seis pernas na sonolenta praça. TODOS ESTÃO MORTOS Daquela remota pendenga talvez tenha restado, apenas, a vaga tropelia que me assaltou numa madrugada recente e tornou viva a tragédia. Morreram os litigantes. Morreram os espectadores. Morreram os narradores, de primeira, segunda e terceira mão. Morreu meu pai, Levizinho, talvez o primeiro e único a rememorar o conflito com meia dúzia de amigos, grimpados no balcão da loja de tecidos baratos e escassa freguesia. ODILON, O ADVOGADO Contam que advogado dos bons, ainda que único. Lembro sua casa, na esquina da praça, confrontando com a de doutor Gil, médico também dos bons, quando se permitia largar o pôquer e medicar. Lembro seu filho, que, diplomado médico, morreu do triste coração, por ele próprio diagnosticado imprestável. Lembro a filha, postada à janela. Sumiram os nomes e os rostos e o resto. Homem de sorte, o advogado Loures! Além do sucesso na escaramuça, também ganhou o primeiro prêmio da Loteria Mineira, coisa de sólidos 100 contos, dinheirama pra ninguém botar defeito. CANTONÊS, O FAZENDEIRO Conheci, anos depois, parentes seus, transformados em capitalistas, ou seja, moradores da capital. Quanto a ele, recordo a fome de vingança, o tropel, o desfecho, o olhar de ódio. Basta para um homem, não basta? REZA A LENDA Reza a lenda, pois a essa altura tudo é lenda, que antiga desavença os apartara até o ódio feroz. Jurado de morte, Loures passou a circular armado, hábito salutar e comuníssimo naqueles confins brabos. Cigarrinho de palha atrás da orelha e revólver na cintura configuravam os homens da época. Nem por isso se intimidou. Armado sim, mas de revólver e coragem, pois seria inadmissível, a um cidadão trabalhador e correto daqueles tempos, que fosse destituído de coragem. Covardia era mais que baixeza, era pior do que lepra. DEUS PÕE... Acontece que se encontraram na praça naquele dia, naquela hora, naquele ano. Conversavam, descansados, o doutor Odilon e seu amigo Zeca Fubá. Surge como do nada Pedro Cantonês e anuncia, vitorioso: “É hoje!”, já sacando o pesado 38. Mais que depressa, em reação de honestíssimo susto, largou a burocrática pasta o advogado e empunhou... o pescoço do amigo Fubá, transformado em escudo. Assim começou a dança de seis pernas. Revólver apontado, saltitava Cantonês em volta do doutor, bradando: “Larga o Zeca, seu filho da puta! Larga que seu dia chegou!”. Na praça, a minguada multidão se alvoroçou, entre medo e curiosidade. Portas se fecharam, janelas se entreabriram, olhos se arregalaram desmedidos. E nada de Odilon largar o pescoço de Zeca Fubá, que pulava miudinho conforme dançavam os desafetos. “Me larga, Odilon!”, gritava ele, esperneando. Com mãos de aço, silencioso, dançarino e atento, mais apertava o doutor contra si o corpo mirrado e suado de salutar medo. ... E O DIABO DISPÕE Foi quando, forçando o braço esquerdo a quase enforcar o desditoso amigo, conseguiu o doutor Loures sacar o revólver. Disparou dali mesmo, por cima da orelha do Zeca, e deu-se o estalinho seco do 32, traque mixuruco, balinha de nada. Foi o bastante. Pedro Cantonês parou, olhou com espanto o buraco no peito da camisa, encarou com ódio o desafeto armado, e caiu. A MEMÓRIA DAS GENTES Ninguém recorda os nomes, as figuras, o acontecimento. Eu mesmo, não fosse um lampejo numa incerta madrugada, jamais traria de volta, de uma história não escrita, esse rude combate de dois cidadãos absolutamente normais e banais. Que importância tem isso? Nenhuma. Por que lembrá-los? Talvez porque hoje a vida humana tenha tão pouco valor, mata-se tão gratuita e impunemente, que um ato desses, marcando profundamente memórias pacatas, se engrandeceu na sombra. E porque a luta de classes entre pobres e ricos não tinha a fúria que tem hoje.

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