Clubes em ruínas fazem a cena techno de Berlim

iG Minas Gerais | Jon Pareles |


No Salon Zur Wilden Renate, tem TVs antigas e jogos de videogame
DANIEL ETTER
No Salon Zur Wilden Renate, tem TVs antigas e jogos de videogame

Nova York, EUA. Um clube em Berlim não tem de ser enorme ou chique para ser extasiante; algumas ruínas quase sem reformas. A pista de dança é do tamanho de uma saleta no Salon Zur Wilden Renate, onde DJs famosos às vezes aparecem sem aviso prévio para reproduzir listas aventureiras de house ou techno. O clube era um conjunto de apartamentos ocupados e ainda tem uma aura artística, com móveis encontrados na rua. 

Trata-se de um labirinto de espaços decorados de maneira divertida: corredores enfeitados com fotografias antigas ou televisões de tela plana, uma pista com dezenas de pequenas bolas de discoteca iluminadas no teto, micro salas de estar cheias de móveis estofados ou televisões antigas e jogos de videogame, e um pátio com uma minigôndola, um Trabant (o muito ridicularizado carro da Alemanha Oriental) transformado em floreira e um pequeno piano de cauda branco que já tomou muita chuva.

O Fiese Remise recepciona os visitantes como se fosse um ferro-velho, com a carcaça de um carro da década de 1950, uma área de estar exterior que parece que foi construída com sucatas e, como bilheteria, os restos de um ônibus. Mas atravessando o ônibus há um clube futurístico de dois andares com um sistema de som nítido e poderoso. Há uma grande sala no andar superior com dezenas de alto-falantes espalhados por paredes e tetos, e um porão abafado, de teto baixo, onde padrões geométricos pulsam atrás do DJ e cada batida é um baque no peito.

Embora sua música estivesse mais calma durante a minha visita, o Suicide Circus também tem um ar desmoronado. É preciso descer uma longa escadaria exterior que liga a ponte à margem do rio e andar por um campo de cascalho espalhado em um labirinto de pátios para finalmente chegar à pista de dança parecida com um bunker.

No Golden Gate, próximo do amanhecer em uma quinta-feira – a melhor noite do clube, afirmam os berlinenses – 50 pessoas mais ou menos se amontoavam em um espaço quase triangular sob uma estação de metro; não que alguém pudesse ouvir os trens. O DJ tocava ritmos extasiantes e pedaços de lamentos de blues; os presentes se moviam como uma eletrizada massa contorcida. “Não beba nada de garrafas alheias”, o segurança aconselhou um evidente turista. “Estou falando sério.”

O Club der Visionaere é mais bucólico – um lugar ao ar livre, sazonal, ao lado de um canal, sob a sombra de um chorão e mais orientado para a conversa com um fundo de música eletrônica; sua pista de dança é quase do tamanho da cozinha de um apartamento em Nova York. No inverno, o clube se muda parcialmente para o Hoppetosse, um barco construído em 1920 onde cabem apenas 125 pessoas.

Mas Berlim ainda tem espaços para recuperar. Kater Blau, que abriu neste verão, serpenteia ao longo da margem do rio Spree, no antigo endereço de um clube da cidade reverenciado nos anos 2000, o Bar25. Chamá-lo de complexo de entretenimento seria muito formal; parece que ele apenas cresceu, barraco por barraco, decorado com gatos de todos os tamanhos.

Através dos anos, clubes ilícitos e efêmeros deram lugar aos que têm licenças, verificações de segurança e calendários públicos (visitantes devem verificar o Resident Advisor). E como não podia deixar de ser, a despojada cena techno de Berlim enfrenta a concorrência de estilos populares em outros países. Um dia, talvez, os clubes locais com uma localização privilegiada ao lado do rio se tornem escritórios ou apartamentos com vista. Mas não agora. Uma geração depois da invasão do techno, Berlim ainda está dançando no escuro.

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