O techno está vivo em Berlim

Estilo musical e uma persistente cena clubber transformaram-se em uma marca da identidade da capital alemã

iG Minas Gerais | Jon Pareles |

Clubes. O Fiese Remise é mais uma casa que mantém o techno em alta na cena berlinense
Florian Wizorek/Reprodução
Clubes. O Fiese Remise é mais uma casa que mantém o techno em alta na cena berlinense

 Nova York, EUA. Quase não dá para perceber o nascer do sol em um domingo de manhã no Berghain, o clube que tem sido a fortaleza da música techno de Berlim há uma década. A principal pista de dança é um lugar perpetuamente escuro, iluminado de vez em quando por luzes intermitentes que vêm do teto, e cheio, hora após hora, de frequentadores cada vez mais suados.

O DJ comanda uma maratona ininterrupta, noite e dia, por todo o fim de semana até segunda-feira de tarde, sustentando o caos ritmado e sem restrições da Berlim techno: batidas de baterias gigantes e estrondosas, as linhas do baixo descendo e subindo sem parar, com um impacto implacável.

Na sala principal do Berghain ficava a turbina de uma usina de energia de Berlim Oriental; ela tem escadas de aço despojadas e funcionais, paredes de concreto e um imponente teto de 18 metros. A multidão está vestida para dançar, não para se exibir: mulheres em vestidos pretos curtos ou regatas e shorts com mochilas, homens de moletons e calças jeans, sem camisa ou usando praticamente só correias de couro. As pessoas requebram, tremelicam, passeiam por ali, balançam a cabeça, sacodem os ombros, mexem os quadris, apertam-se em casais; alguns se abraçam e giram em grupos de pessoas de troncos nus.

Fora da pista de dança, espalhados pelo prédio de vários andares, existem alcovas obscuras onde acontecem encontros mais privativos. Não há espelhos em nenhum lugar, não há provas persistentes; pode-se fazer de tudo, menos fotografar.

Neste novembro, Berlim comemorou o 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, que aconteceu em 1989. A energia anárquica liberada pelo evento definiu a cidade por uma geração, apesar de as tendências recentes apontarem para os clichês internacionais de gentrificação. As cicatrizes da divisão ainda são visíveis em locais como a East Side Gallery, um pedaço conservado do muro ao lado do rio Spree, agora decorado com pinturas que lembram quadrinhos, mas ainda são mensagens tocantes com temas políticos.

Um aspecto da reunificação que ninguém teria previsto – o surgimento do techno e uma persistente cena clubber estilo faça-você-mesmo – transformou-se não em uma moda noturna passageira, mas em uma marca da identidade da cidade. Mesmo que o mainstream da música eletrônica esteja se voltando para o glamour e a fama do pop, a tradição de Berlim continua a ser fazer festas nas ruínas: escuras, sem glamour, cheias de energia.

“Essa cultura é parte do DNA da cidade”, explica Sven von Thülen, jornalista e DJ cuja história oral do techno (escrita com Felix Denk), “Der Klang der Familie: Berlim, Techno and the Fall of the Wall” (“O Som da Família: Berlim, Techno e a Queda do Muro”, em tradução livre), acaba de ser publicada em inglês. “Os dias de anarquia – anos – deram à subcultura tempo para criar raízes na cultura da cidade.”

Os clubes de Berlim e o espírito que eles há muito tempo representam atraem para a cidade não apenas turistas, mas também um afluxo de artistas, músicos e DJs expatriados – para quem os aluguéis, apesar de estarem subindo, ainda são comparativamente baixos – e muitos berlinenses que estão dispostos a passar as segundas-feiras se recuperando das longas horas nas pistas de dança.

Como o aniversário da queda do muro estava se aproximando, tirei quatro dias para fazer um tour pelos clubes de Berlim em outubro e descobri que, apesar de os dias de anarquia terem acabado, eles deixaram de presente um amuleto de coragem.

Berlim não é mais exclusivamente governada pelo techno. House music, o estilo que domina os clubes internacionalmente, também enche as pistas de dança na cidade. Mesmo no Berghain existe uma segunda sala, o Panorama Bar, onde as pessoas podem deixar para trás a austeridade do techno pelo balanço mais otimista e harmonioso da house music. Mas a espécie de house music chamada “big-room”, que flerta com o pop, ainda não conquistou a cidade.

“Berlim tem um estilo mais ‘a gente faz tudo sozinho’. O som é mais áspero aqui do que em outros lugares, mais underground. Eles mantêm essa vibração. Não é por causa do dinheiro – é passional”, afirma Ellen Allien, DJ que também dirige o selo BPitch Control.

O techno que surgiu durante a reunificação de Berlim foi um produto de circunstâncias únicas: música inovadora (e a tecnologia para fazer e tocar), espaços disponíveis e as novas drogas, como o ecstasy.

Os espaços foram cruciais. Nos lugares em que o muro esculpiu o perímetro infame de sua faixa da morte e, em seguida, onde as empresas orientais começaram a fechar, havia prédios abandonados aguardando tanto os posseiros como os festeiros.

Outro fator importante moldou a cultura dos clubes de Berlim: não havia mais toque de recolher. A música não precisava parar. Isso ajudou a criar na cidade o hábito de clubes com festas que começam tarde da noite e entram pelo dia seguinte, trocando o ritmo normal do dia a dia por uma diversão sem restrições. Os clubes costumam abrir suas portas à meia-noite, e poucos clientes chegam antes de uma hora da manhã; estão provavelmente tirando sonecas preparatórias.

A cidade difere de outros centros conhecidos por sua vida noturna de outro modo significativo: Berlim ainda privilegia a música sobre a ostentação. Seus clubes – particularmente o Berghain – têm famosos porteiros arbitrários. Ouvi histórias de mulheres que foram impedidas de entrar em um clube porque estavam usando salto-alto e estava claro que não planejavam dançar muito.

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