Metal na Veia

O que teriam em comum um músico clássico, uma pedagoga e uma chef de cozinha? A paixão pelo heavy metal e a expectativa pela agenda cheia na cidade a partir deste domingo (30)

iG Minas Gerais | Barbara França |

Juliana Franco, subchef e metaleira é contra estereótipos: “Muitas vezes quero, sim, vestir uma camisa de banda, coturno... Em outras, quero usar um vestido e salto”
DENILTON DIAS / O TEMPO
Juliana Franco, subchef e metaleira é contra estereótipos: “Muitas vezes quero, sim, vestir uma camisa de banda, coturno... Em outras, quero usar um vestido e salto”

 

Acomodado nas cadeiras estofadas de um sofisticado restaurante na zona sul da cidade, quem degusta os piamontes e batatas recheadas ao som de um tranquilo piano ambiente talvez não imagine que os requintados pratos foram preparados ao som do mais feroz heavy metal. No “backstage” do local, a subchef Juliana Franco, 33, faz das colheres e panelas seus instrumentos e, ao som de bumbos duplos e guitarras distorcidas, cozinha para uma clientela que provavelmente jamais pisaria em um show de música pesada. Ou não.   Mesmo Belo Horizonte sendo considerada por muitos a capital do rock and roll, ter um público frequente, fiel e cultuado pelos artistas, além de ostentar o status de berço da maior banda de metal do Brasil, o Sepultura, muita gente ainda acha que o gênero é coisa de adolescente rebelde, cabeludo, tatuado e que só usa preto. Bom, estes certamente estarão presentes nos shows nacionais e internacionais que vão invadir a cidade a partir deste domingo (30) com apresentação da tradicional banda de thrash metal alemã Destruction (confira as principais bandas na página 4). Mas muita gente que também fará parte da plateia foge ao estereótipo e, no seu dia a dia, mostra que os fãs de rock e metal estão por toda parte e nem só de coturno e couro vivem.   A educadora social Isis Lovato, 31, é uma boa exemplar desse “grupo”. Formada em pedagogia, ela passa suas manhãs e tardes rodeada de crianças. A rotina só é quebrada quando alguma de suas bandas favoritas vem se apresentar na cidade. Com trejeitos meigos e cara de boa moça, Isis é uma “headbanger” (termo em inglês para apelidar os fãs de metal devido ao ato de balançar a cabeça acompanhando a batida da música). “Já aconteceu de eu encontrar o professor de educação física de uma das escolas que atendemos em um show de metal. A cara dele ao me ver foi de espanto”, lembra a educadora, entre risos.   Comunidade   Para o professor de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e estudioso do heavy metal, Jeder Janotti Jr., ir a shows é uma das atividades que legitima o pertencer a uma “comunidade metálica”, como ele mesmo denomina. Segundo Janotti, embora não exista um livro de códigos sobre o que é um verdadeiro metaleiro, algumas características são constituintes, como “dedicar parte de seu tempo para ouvir e discutir heavy metal”. Os cabelos compridos e as roupas escuras são apenas formas de performatizar algumas preferências estéticas da comunidade, mas, de acordo com o pesquisador, não são as únicas e nem elas são necessárias.   Lucas Barreto, 29, por exemplo, não liga para cor de roupa e sempre manteve o cabelo bem curtinho. “Só quem é próximo sabe que eu curto heavy metal, pois não me enquadro no estereótipo. Trabalho com música clássica e amo a minha profissão”, comenta o violonista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. A admiração por MPB e jazz ele divide com bandas como Deep Purple, Whitesnake e Dream Theater, esta, inclusive, protagonista de um dos dias mais marcantes da sua vida. “Foi meu irmão quem me apresentou à banda e nós dois a amamos. Durante o show em BH em agosto deste ano, eu olhava pra ele, que chorava. Acabei chorando muito também”, lembra.   O gosto do violonista tanto por música clássica quanto por metal não é tão aleatório. Até estudo científico já foi feito sobre essa relação, como o realizado pela Universidade Heriot Watt, na Escócia. Ele associava personalidade a preferências musicais e constatou que os fãs dos dois estilos são muito parecidos, principalmente no quesito criatividade.   Algo que não é novidade nenhuma para o compositor e regente da Orquestra Jovem Vallourec, Rogério Vieira, 51. O que ele desconhece mesmo é o motivo da reputação dos músicos do rock como pouco habilidosos ou menos talentosos. Fã do rock progressivo do Yes, Genesis e Pink Floyd, foi exatamente o virtuosismo dos artistas o que mais chamou a atenção do regente para a música pesada. Mesclado ao repertório com Mozart, Beethoven e Bach, ele sempre coloca seus jovens para tocar rock’n’roll. “Minha filha de 15 anos me ‘aplicou’ System of a Down e eu já ‘apliquei’ nos meninos da orquestra. Vamos tocar com certeza”, se diverte Rogério, mostrando que também ouve coisa nova.   Sem violência   Além da falta de apuro musical, outro estereótipo sem fundamento é o do roqueiro ou metaleiro violento. Estudando as preferências musicais de jovens em conflito com a lei, o psicólogo e mestre em música pela Universidade Federal do Paraná, Felipe Dable, não encontrou nenhuma relação direta entre rock e violência. Os jovens em situação de conflito possuíam preferências tão diversas quanto os que estavam fora dessa situação. “Acredito que essa aproximação é feita com os jovens pela sua força e vitalidade. O jovem e a música representam essa possibilidade transgressora e isso incomoda o status quo. O rock já carrega na sua história esse movimento de transgressão e, juntamente, o de perseguição”, opina Dable.   Segundo o pesquisador, associar identidade ao gosto musical é uma atitude reducionista e pode ser trampolim para o surgimento de preconceitos. No entanto, para Tobias Sammet, vocalista da banda de metal melódico alemã Edguy, uma das que se apresentam em BH em dezembro, se tem característica que une a todos os ouvintes de música pesada é o amor por seus ídolos. “Nós somos todos as mesmas pessoas. Alguns estão no palco, outros em frente ao palco, mas, no fim das contas, temos algo em comum: todos nós amamos o riff de ‘Holy Diver’ (primeira faixa do disco homônimo do célebre vocalista norte-americano Ronnie James Dio – 1942-2010)!”.   MÚSICA PESADA É COISA DE FAMÍLIA   A educadora Isis Lovato teve seus primeiros contatos com o metal por influência da irmã mais velha, que tinha uma banda cover de clássicos como Iron Maiden e Led Zeppelin. A subchef de cozinha Juliana Franco, o violinista Lucas Barreto e o funcionário público Gabriel Lott, que divide seu tempo entre o escritório e as guitarras da banda Pedra Lascada, também “descobriram” a música pesada através dos irmãos. Bom, isso acontece em qualquer lugar do mundo. Mas, de acordo com o músico e escritor Marcelo Dolabela, autor de “ABZ do Rock Brasileiro”, a participação da família na formação do gosto musical é algo característico do roqueiro mineiro.   “Quando ele começa a se interessar por música ainda menino, a família tem uma presença maior. O pai dá uma guitarra, uma bateria, a avó vai assistir aos shows”, comenta Dolabela, destacando o caráter bem classe média da música feita por aqui em comparação com a cena no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde bandas famosas surgiram nos subúrbios. Segundo ele, esse traço existe desde os anos 1950, quando a educação musical já fazia parte da formação dos estudantes. Daí a forte ligação entre a academia e o rock na capital.    “A maioria dos músicos estudaram, muitos têm formação acadêmica, são professores, médicos, dentistas... Também os fãs, mesmo não envolvidos com música, pesquisam os artistas, comentam as músicas, se interessam por qualidade”, destaca. Não é à toa que o público belo-horizontino é considerado um dos mais especiais do país, sendo lembrado por bandas que por aqui passaram e que voltaram especialmente por este aspecto. “Na última vez que tocamos em Belo Horizonte, os fãs foram incríveis, cantavam todas as nossas músicas bem alto”, lembra Tobias Sammet, vocalista da banda alemã Edguy, que volta à cidade no dia 8.    Invasão metal   Essa e várias outras bandas de heavy metal e hard rock vão invadir a capital até o meio de dezembro. Destruction, Stryper, Hammerfall, Gotthart e a “prata da casa” Sepultura vão se apresentar no Music Hall, enquanto bandas como Foo Fighters, Sonata Arctica, Epica, Dragonforce e Slash já têm datas confirmadas para o ano que vem. Tantas atrações mostram que BH entrou de vez na rota dos shows internacionais, é o que atesta o produtor da Nó de Rosa, Gegê Lara. Segundo ele, cuja empresa ajudou a trazer bandas como Whistesnake, Guns N’ Roses e Black Sabbath, a cidade é uma das mais roqueiras do país.    “Belo Horizonte é uma capital jovem, o que reflete no gosto de seu público. E nós sempre apostamos nele, afinal, os resultados sempre foram muito mais positivos que negativos”, comenta Lara, sobre a frequência dos fãs em shows, uma média de 15 mil pessoas. O produtor se refere aos megaeventos, que atualmente enfrentam o impasse da oferta de espaços. O estádio Independência, o Mineirão e a esplanada são algumas das opções, mas, para ele, ainda não há uma articulação eficaz entre o calendário cultural e o futebolístico.    Agora, com relação aos eventos de pequeno e médio porte, a realidade é um pouco diferente. Segundo o produtor da MS BHz, Márcio Siqueira, responsável por oferecer muitos dos shows listados acima, a cidade enfrenta uma grande inconstância de público. “Os altos custos da produção estão refletindo diretamente nos valores dos ingressos, e isso, na maioria das vezes é o maior desafio para administrar um evento com preços mais favoráveis a todos”, comenta ele. De acordo com Siqueira, mesmo BH sendo rota de importantes artistas e contando com uma média de dois shows de heavy metal por mês, a cidade ainda carece de fornecedores de equipamentos de ponta, os quais, muitas vezes, devem ser buscados em São Paulo, por exemplo.   Afora esses eventos periódicos, a cidade oferece uma intensa programação semanal em bares e casas de shows onde os “camisa preta”, como os fãs são conhecidos, costumam ir para ouvir seus clássicos preferidos, uma vez que a oferta de bandas cover é imensa. As casas do Circuito do Rock, na zona sul, e o Stonehenge Rock Bar, no Barro Preto, são as mais populares, destaca Adriano Falabella, apresentador do quadro “Enciclopédia do Rock”, que é exibido durante o programa “Alto Falante”, da Rede Minas, e um assíduo frequentador do Bar do João, na Savassi, outro reduto rock’n’roll.    AGENDA "HEADBANGER" NO FIM DO ANO EM BELO HORIZONTE   Destruction Banda de thrash metal alemã formada em 1982, é um dos pilares do estilo na Europa. Neste domingo (30) no Music Hall. A partir de R$ 90 (1º lote, promocional, inteira, pista)   Stryper Natural dos EUA, a banda de heavy metal apresenta composições com temáticas cristãs. Domingo (7/12), no Music Hall. A partir de R$ 110 (1º lote, promocional, inteira, pista) Sepultura: A banda lança o disco “The Mediator Between Head and Hands must be the Heart”. Sexta (12/12), no Music Hall. A partir de R$ 80 (1º lote, inteira, pista)   Festival O Music Hall abrigará shows de três bandas no dia 8. o grupo de power metal sueco Hammerfall apresenta seu novo disco “(r)Evolution”; a banda de hard rock da Suíça Gotthard mostra o trabalho “Bang”; e o grupo Edguy, representante do power metal da Alemanha, toca o novo “Space Police”. Ingressos a partir de R$ 180 (2º lote, promocional, inteira, pista)   DOCUMENTÁRIO   Ruído das Minas: Dirigido por Felipe Sartoreto, Gracielle Fonseca e Rafael Sette Câmara, o documentário lançado em 2009 conta a história do período de maior efervescência do metal mineiro, quando surgiram bandas como Overdose, Sarcófago e Sepultura. Disponível na internet, o longa traz depoimentos importantes.       

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